Hoje tarde, atordoado, bebi suco de laranja. Sei que não era a maior necessidade maior do homem (beber), mas na praia, sozinho, estava delicioso. Sempre fui uma pessoa que deixava o sono e a fome me controlar. Hoje eles são mais fracos do que eu pensava. Nunca foi assim. Desde sempre. Mas, hoje, tudo é diferente.
As horas demoram e a fome, bem mais tarde, que vem. E mesmo acompanhada do sono, não é essa companhia que me preenche. Sou preenchido por algo que seduz o homem. Quem conduz a fome e o sono pra (eles) chegarem devagar na cabeça da gente.
A vontade de dormir chega, tal como, a vontade de me preencher. Quanto tempo será que dura (o fazer-se de difícil pra não ser mais um da lista) isso? Quando se come bem e depois se cospe a fruta fica encantada, afinal, qual o porquê de não se comer bem de novo? O que eu (fruta) tenho que fazer para que a vontade de comer (de novo) nunca acabe? Já nem sei se tenho fome ou sono. Saio… está escuro… (é que já são 20:30 h). Deito e finjo não me importar. Quero dormir pra me saciar. Quem sabe no sonho da alforria eu me alimento?
Sentimento que aflige o coração
Sincero e derrotando a razão
Emoção que chega de repente
Trazendo esperança pra gente
Esperança de dias melhores pra sempre?
Ou só mais uma ilusão de nossa mente?
Enquanto tudo é tão confuso e belo
Só me resta a certeza do que quero
Querer viver um sonho acordada
Admirando a lua na madrugada
Com alguém que sabe o que diz
Nobreza de caráter, isso vem de raiz
É certo que nada vem por acaso
Faz parte da vida até mesmo o descaso
Que nos ensina através da dor
Que nem sempre reconhecem nosso valor
Os olhares expressam a alegria
Quando a paixão invade o peito
Sentindo no toque da pele (feliz dia)
O que há tempos não sentia
É o amor, não tem jeito
Quanto tempo dura a felicidade?
Será eterna, basta se permitir
Colhendo os frutos da verdade
Duas almas voltam a sorrir
Hoje cedo, acordado, percebi que a fome não era a necessidade maior do homem. Nem mesmo o sono.
Sempre fui uma pessoa que gostava de dormir e de comer. Costumava acordar às 07:00h com fome e sono. Sempre foi assim. Desde o tempo da escola de alfabetização. Mas, hoje, tudo é diferente. As horas demoram e a fome não vem. A vontade de dormir se transforma numa intenção de espera. E… Pera aí.
Busquei a pêra da geladeira. Saciou a minha fome. Claro, já são 22:00 h. E hoje eu não comi nada. E hoje eu não dormi nada. Mas me sinto saciado. O que será que aconteceu? Como a fome e o sono, necessidades humanas, se perdem por ele? Será que é amor? Ou existe um remédio que sacia fome e o sono ao abrir a janela e respirar o ar poluído da praia de Imbetiba?

Cresce uma flor na terra
No peito
Na encosta da serra
Lugar estreito
Crescimento sutil
Insuspeito
Ante a dor, é gentil
Rarefeito
Rompe a semente
Quebra a casca
Germina na mente
Ante a nevasca
Vence dura batalha
O Mau tempo
Brota! Cresce sem falha
No contratempo
É primavera, note que surge:
Pequeno botão
Nasce! Beleza que urge
Acima do chão
Sinta o cheiro, o perfume!
Doce, juvenil
Planta que brilha e lume
Brilho pueril
A flor atinge a grandeza
Desabrocha!
Com cor, graça e beleza
Vence a rocha
Com a borboleta reparte
O pólen doa
Um beijo no pouso! É arte
Assim ressoa
Ela espera para se conectar
Esse momento
De doar ao inseto o néctar
Do sentimento
Qual é o nome da flor?
Essa, do peito?
É Simplesmente amor
Amor- Perfeito!
E a criança interior irá, brilhar, de novo.
Orgia da palavra:
Poesia.
Que brota no pátio,
no trago, no ócio,
no espanto;
Serpente destilada
do lancinante pranto,
e do prazer.
Homilia da palavra:
Poesia.
Que nasce do avulso,
da farsa, do aposto;
erigida do susto, do tido,
do oposto
existencial que é ser.
Moradia da palavra,
arritmia da palavra,
extasia da palavra:
Poesia.
Acima da orgia,
da homilia,
da antropofagia,
da urgência do meio dia,
da agonia, e do querer.
(A poesia, definitivamente,
é coisa deste mundo).
Do meu canto na sala de aula eu nada observava, a não ser o livro aberto sobre a carteira. As palavras passavam em borrões que nada significavam, e a cada parágrafo lido outros três eu retornava, derrapando na leitura despretensiosa e desatenciosa. O burburinho à minha volta era uma cacofonia ininteligível, e pouca atenção também lhe dava. Foi quando ela entrou, andando rápido, mas sem pressa. O tronco vinha ereto e o queixo erguido denotava um desafio natural à própria atmosfera que a cercava. Cada passo era uma firme decisão, enquanto arrastava as sandálias rasteiras, arranhando o chão quase com desdém. À sua frente ela abraçava uma pasta cor-de-rosa, e me peguei imaginando que tipo de segredos ela guardaria. Escolheu rapidamente um lugar no fundo da sala, do lado oposto ao meu e, assim como eu, pôs-se a esperar a palestra começar. Também como eu, parecia entediada, mas, diferente de mim, não pareceu aperceber-se da presença de mais ninguém. Tudo o que fez foi aguardar. Retirou a bolsa dos ombros, pôs sobre a carteira, e a revirou um pouco à procura de algo, retirando um espelhinho de um estojo de maquiagem. Depois mirou a própria face, dando um sorriso sem mostrar os dentes e sem brilhar os olhos. Os cabelos eram uma torrente de água negra que se derramava sobre as bochechas e os embros, emoldurando o belo e agudo rosto de fada. Os olhos eram grandes e delineados por uma cuidadosa maquiagem, que lhe alongava os cílios. Castanhos, os olhos pareciam flertar com um escuro tom de verde, refletindo num brilho vívido a sala ao redor. O rosto claro parecia brilhar, embora a luz mortiça do fim da tarde nada tivesse a ver com isso. Não notei que a olhava fixamente até que, de inopino, ela retribuiu brevemente o olhar. Um grande embaraço me atingiu, feito uma rajada de vento, e por um momento o meu coração se agitou no peito, como uma mosca presa em um copo. Ela percebeu. O meio sorriso, os olhos baixos no colo e as maçãs rosadas do rosto a denunciaram. Tentei me recompor. Voltei a atenção ao livro sobre a mesa. Já havia se fechado sozinho pela tensão da brochura. Não liguei, já pouco lembrava do que havia lido. Tudo em que eu pensava era na estranheza daquela menina, nos olhos claros e cabelos escuros. Na pele branca e no sorriso mais branco que a paz. Era a paz. E era a guerra. Dali eu não sairia ileso. Recolhi minhas coisas, e corri. Fugindo em direção à segurança da timidez. Do nada fazer, pois só quem deixava as trincheiras recebia uma bala no peito e sangrava até a vida acabar. Como o sol, eu só observei. Emiti e absorvi seu calor. Ah, o que seria do homem sem o medo de se ferir. Era a sobrevivência. Nada mais importava. Fui embora com um sorriso no rosto, para nunca mais voltar.
Ou é melhor esperar o tempo “certo” para que no final nada aconteça?
Em ritmo ingrato,de norte contrariado,
nada responde a sorte,
de encontrar tudo ótimo
sempre entregue, de bom grado,
pelas mãos dos quem te servem. E não precisa de articulações
pra aceitar uns com muito
e outros com muito menos.Muito menos pra mim, já que…
é nítido a desigualdade material,
as oportunidade desproporcionais,
as inúmeras diferenças no olhar de
quem só vê pela lente da glória pessoal.
Enquanto não haja ofensa sentida na pele,
quem muito tem, pouco se sensibiliza,
do outro lado por uma simples besteira,
caso o ego supremo se fira, logo se humaniza,
chorando com birra aos quatro cantos da feira
clamando pra si e pros outros condutas da freira
Madre Tereza.
Agora quão contraditório é,
sofrer menos pelos outros,
muito por si, evidenciado que a eficácia dos “nós”
só funciona quando não tem contrariedade
no doce destino entregue sempre certo e sem alarde.
Estrela desinteressada desce do pedestal,
cobre dos outros aquilo que faz,
e muito menos sofrerá no jaz.
Mudando bruscamente, do Vermelho para o Cinza, prossegue a Parte II da Trilogia das Cores…
Cinza o tempo
Cinza o vento
Abril cheio de névoa e fuligem
Nesse cinzeiro atmosférico
Cinza a roupa,
O asfalto,
O metal,
O concreto
As cinzas no peito
E um coração
Em descoloração,
Estático…
O cinzel:
Outro coração
Assintomático.

Aquilo que se vê todo dia: como o jantar em família, (continuamente desvalorizado;) como a esposa que sorria (de avental pro marido quando o servia;) como o elogio da tia; como o detergente da pia; (como o feijão que sacia;) como o amigo da companhia (da noite mundana vadia); como o amor que amacia; como o passado vivido da nostalgia; como a mamãe para as crias; como Didi pro Zacarias; como a letra que eu lia (ignorada por idiotas manias;) como a labuta da Maria; como a ferida que ardia; como a queimação da azia. Tudo do cotidiano visto diversas vezes, covardemente, deixa de ter valor, porque alguns jornalistas tornam o todo banal, como se a mesma notícia saísse no jornal. Eu trago uma tentativa boa e bela, mas há quem fique enjoado, mesmo que um dia por algum poema tenha sido, verdadeiramente, tocado. Mas a eles só possuo pena e desejo sorte nas respirações e experiências do dia a dia porque não vou virar marqueteiro só pra criar o clima de quero mais. Se tiver que escrever sempre e somente contagiar uma pessoa, já fiz meu papel no mundo e nada me abalará… porque nem ela – a maior melodia – se entristece neste mundo, ao ter que ficar calada, pausada, pra fazer o doce necessário ao sucesso… quantas vezes, ela, uma mera poesia, em meio a inúmeras, aparece, e sem buscar resultado, padece, desvalorizada por sua própria magia.
Após o dia da mentira. Vamos lá, a verdade, prevalecerá. Vá.
Quanto mais a gente pensa que sabe,
mais estamos dispostos a errar e,
errando podemos quem sabe,
iniciar a mudança…
Mas não é um “se mudar” comum
é um “se mudar” diferente,
que só quem sabe (a gente)
consegue distinguir…
Porque se mudando,
sem saber o porquê,
não é um “se mudar”,
é sim a anulação da própria personalidade.
Veja, não menospreze os erros de verdade
posto que só com os desatinos
sabemos qual é a nossa cara.
E assim, mudando-a, na medida do possível,
o nosso destino melhor tornar-se-á mais crível.
Já que caindo se aprende a caminhar,
e errando, quem sabe podemos,
no (en)fim, mudar.




