Pelas minhas contas já foram:
6 quilos,
1 palmo de cabelo
(mais 1000 fios que caíram),
2 cactus que sucumbiram de tristeza,
3 desilusões,
5 filmes de drama,
1 de comédia,
2 telefonemas,
3 poças no travesseiro,
72h de música,
568 silêncios,
8 sacos pretos,
2 viagens,
1 morte na minha cara,
6 dívidas,
40 dias de agonia,
10 de resignação,
2 poemas rasgados…
Restou o essencial.
A vida tem seu tema favorito:
Saudade.
Coisa sentida na ponta da alma:
Pontada estalada no peito da gente.
Há uns que sentem falta de casa
Daquele feijão pretinho e daquele teto,
Que mesmo caindo sobre as cabeças, de vez em quando,
Ainda é onde se abriga o aconchego e o afeto.
Há também a saudade da terra
De onde a gente foi colhido, gerado, parido.
E que mesmo levado pra longe, meio a contragosto,
Tem pé e raiz da gente fincado por lá.
Há saudade de coisas que não se sabe,
De objetos, dias, lugares,
Há saudade sem nome e sem par!
Há, por fim, a saudade delicada
De um belo par de olhos.
Não só dos olhos, mas tudo que acompanha:
Gesto, gosto, palavra e riso.
Essa, é a saudade que dói mais.
Vou pra lá, venho pra cá em toda direção
Com os pés na areia o sentimento delira
Em espumantes ondas de emoção
Que a praia o mar atingira
Olho ao redor procurando o que perdi
A paisagem opaca e sem brilho
Areia sem cor
Eu a sentir
Minha boca sem sabor
O peito pressionando um gatilho
Para deixar o coração fugir
Pensando no que lhe falta
Senti por você amor, sede, desejo e fome
E grita da pedra mais alta
Que usa a linha do horizonte para escrever seu nome.
Por que morrem os reis? Por que perdura a coroa se não há mais homem vivo que possa usá-la? Por que o vazio ocupa, inquieto, o espaço onde antes havia vida? Por que a dor, que era tímida e fugaz, hoje se mostra tão perene, como as ameias de um castelo? Porque o amor lhe fere como uma lança, quando tudo o que deseja é ser salvo pelo ódio? Por que a amargura lhe sufoca o peito, lhe aperta a garganta e lhe transborda pelos olhos em ligeiros fios mornos que secam impotentes antes de lhe chegar ao queixo? Quem escolheu as regras do jogo e lançou os dados sobre a mesa, dardejando tudo ao chão antes que o dia e a festa chegassem ao fim? De que valem as palavras doces se não há mais ninguém vivo que possa ouvi-las? Entre o pouco do que é certo, são as perguntas que, antes desimportantes, hoje surgem à frente mesmo das respostas. E de tudo que não se sabe, à frente de todas as coisas segue, inviolável, aquele amor que nunca é (e nunca foi) o bastante.
(As rosas da feira, mesmo bonitas, me cortaram o dedo. Dor latente. Não maldisse as rosas nem os espinhos, mesmo prevendo que no dia seguinte talvez elas murchariam. Me dei conta, com certa cisma e saudade, que já não tenho mais medo das rosas.)
Já não tenho medo das rosas.
Lindas, rubras…
Antes meu medo era rubro
Rubro meu sangue
Colhido nos espinhos
Do medo perfurante
De ausência e desilusão.
Murchas.
Rosas murchas,
Feitos sonhos murchos
Despetalados na praça.
Já não tenho medo das rosas.
Perfume com espinho dentro,
Sofreguidão com espinho dentro
Beleza, mesmo que dure
Só a paixão da entrega?
Já não me envergonham as rosas.
Faces rubras,
Sangue, sofreguidão e espinhos.
Porque hoje me enfeito de rosas
Mesmo que a carne grite,
Mesmo que os dedos gritem,
Porque sei, agora murchas,
Que eram lindas e inocentes.
Eram apensas rosas.
Sou metáfora.
Tudo que falo e vivo
Há complexidade demais
Pra querer ser tão exata.
Tudo o que morro e sinto
É extenso demais pra
Ter sintaxe,
Ponto,
Dicionário.
Por isso uso e abuso da semântica vária,
E a mancheias distribuo
Parágrafos, relevos
E imensidão.
Por isso também verto lágrimas,
Danças estranhas, e cantigas,
E tenho uma capacidade boba
De me admirar.
Porque sou gente
Porque sou corpo
Porque sou vontade e sentido
Nessa casa alma
Que construo e construo,
Tijolo, cimento e sonho
Ad infinitum.
(Em nome do bem pode-se fazer o mal?)
Adormeço pensando em uma piada com uma carreira que foi escolhida por vários membros da minha família. Ela é mais ou menos assim:
Morre um engenheiro e quando chega ao céu São Pedro atende e informa que ele não está sendo esperado lá (o santo possui uma lista). Triste o engenheiro vai ao inferno e lá, é “bem” recebido, se instala e usa seus conhecimentos para tornar o local mais agradável. Faz sistema de refrigeração, piscinas, organiza as construções, enfim, usa suas habilidades profissionais tornando o inferno melhor. Enquanto isso, São Pedro, “percebe” que houve um equívoco e tenta reverter a situação mostrando a lista com o nome do engenheiro ao chefe do inferno, que se nega e exalta as melhorias nos seus domínios. São Pedro se aborrece dizendo ser contra a lei e afirma que vai resolver tudo na justiça. O Chefão ri e pergunta: como irá encontrar um advogado no céu?
Piadas a parte, se todos os advogados estão destinados ao inferno… escrevo sobre umas questões que me inquietam ultimamente.
Por que o bom tem que ter tantas regras?
Rótulos, listas, regras, causas estão a serviço da organização do bem ou são restrições cooperando a serviço do mal?
Pode o bom ser desagregador? Isto não seria incoerente? Não estaria implícita na bondade a união?
Quando desprezamos a possibilidade de somar não estamos favorecendo o mal?
Por que o mal sempre está com as portas abertas?
O “bom” quando tem poder de exclusão está realmente a serviço do bem?
A bondade não deveria ser “atraente”?
Quando o bom transforma o ambiente mal e o aperfeiçoa ele está se tornando melhor ou pior? O que seria um inferno agradável?
É possível “mau” a favor do bem (como quando o engenheiro é condenado a viver no inferno e o aperfeiçoa de bom grado) e o “bom” cooperando com o mal (quando São Pedro proíbe a sua entrada ao céu)?
Aliás, existe o “bom” e o “mau”?
Para ser bom precisa estar em uma “lista dos permitidos” provando para ter aceitação enquanto o mau não precisa ser provado?
Com certeza existem diferenças, inclusive entre os diversos níveis de certeza.
Porém, incluindo-me em um mundo certo de imperfeições, gostaria de encontrar pessoas “não tão boas” (as únicas possíveis de se encontrar), mas que, sobretudo, me fizessem bem.
Seja nas dobras dos lençóis,
Ou nas dobras dos dias
Aprendi a beber
De cada estrela, ou poeira,
Minha dose de sinestesia.
E ao mesmo tempo
Trago o olhar alegre e triste;
Tanto pela falta existente,
Das coisas que a saudade fala,
Quanto pelo sol poente que insiste
Preencher o vazio da mala!
Sigo pouco a pouco a reerguer
Essa minha vida trôpega, arredia
Com mais significado,
Arte e sutileza
Com talvez, ainda mais, poesia.
As cinzas da folia
E o gosto vermelho da romã
São anúncios de que a vida
Retoma já o seu quinhão:
Rotineira, e sem enfeites
Adentrará a segunda-feira de Janeiro
Digna de contratempos, destemperos,
E quiçá, alegrias de ocasião.
O dia ameaça uma balada triste
E o comboio desejoso ainda pede
Que a folia não acabe tão estanque…
Mas o tempo, dedo em riste, não cede:
Faz do contraponto folião
Seu argumento e desejo.
Se não fossem os dias normais,
O que seria dos dias de riso e festejo?
(Pra tio Paulo que acreditou: “Escreve todo esse mar bonito que você tem aí!”)
Nunca fui boa em pintar o mar, feito meu irmão, ou boa em sentir o mar, feito Caymmi. Até então, achava isso um mero detalhe das coisas da vida, como não ser boa em mímica, ou não saber sambar. Resignada em entender que cada qual possui seus talentos, nunca insisti muitas telas com aquelas ondas ‘retas e chapadas’, como citava minha professora no ateliê. Mas comecei a achar tudo isso bem engraçado ao me dar conta que o mar sempre esteve ali presente como plano de fundo. Passei a infância inteira brincando no mar. A comida que mais gosto vem do mar. Morei perto do mar. Trabalhei no mar. Porque tanto mar em mim, e tão pouco eu no mar? Mas a resposta veio antes da pergunta. Dia desses senti uma vontade estranha: senti falta de falar com o mar. Saudade de algo que nunca tivera antes? O sentimento era exato esse, da mesma fundura: saudade. Peguei minha bicicleta, ignorei o dia mais quente do ano, e pedalei infinitamente até dar de cara com ele. Com ele não, eles: o mar e a lagoa. Fiquei como boba, mirando, até estabelecer o primeiro contato. Sentei na sombra e na areia, pedi licença; deixei a bicicleta de lado. Ele até que não era assustador. Ele até que não era insólito. Era misterioso ainda, mas não era de todo desconhecido. Tinha um quê de (in)constância e movimento. Tinha um balanço que carregava a gente pra dentro da gente, e que queria carregar a gente pra dentro dele. Fazia um sussurro que embalava a minha vontade. Fiquei assim, de cara pra ele, ouvindo e fitando, acho que uma hora seguida. Foi um papo bom, e no fim, descobri que o mar se instalou de vez em mim. Perguntei o por que de tanta demora na vida pra essa instalação… O mar, sempre segredante, marolou: era o medo da entrega.
Que venha o ano novo!
Tão novo, que soa piegas;
De tão velho e surrado
Como a progressão
De meus carcomidos
Sonhos retrasados…
Mas que venha o ano novo!
Numa ode à triscaidecafobia reversa…
Se até as doze badaladas
A palavra certa era: mudança;
Agora na muda e renovada 13ª hora
Já conjugo o neo-verbo esperança.
Que venha o novo ano!
Dos pequenos e grandes planos
Sem cortes, retoques, nem improviso
Numa vida que se prevê numericamente renovada.
Pois prosseguir autêntica, a errar e aprender consigo,
É melhor, ainda, que ficar parada.
Sociedade que vibra com seus desenvolvimentos,
acompanha e acredita nos avanços da medicina
que se torna inútil perante a tantos tormentos
provocados pelos homens,enfim,essa é nossa sina.
Sociedade de um capitalismo cada vez mais devasso,
que em marionetes, os indivivíduos, transforma.
Um consumismo perverso faz com que,de passo à passo,
as pessoas devorem-se, mutilem-se, matem-se,de toda forma.
Sociedade hipócrita,podre, quem ainda não percebeu?!
A classe alta,o burguês, sempre em busca de status, de pose…
com o rei na barriga, pensa ser o melhor, como se fosse…
Quem poderia dar fim a essa hipocrisia? Infelizmente,não eu.
Sociedade que favorece aos menos necessitados,dá-me dó em pensar.
Sociedade corrompida, despida, falida, perdida…
Resta-nos apenas lamentar?Ou ainda há tempo de a reestruturar?
És a sociedade em que esperando a morte, passa-se a vida.
Mais um natal se passa, e espero que pra gente, não seja uma data indiferente. Amigos se foram, perdeu-se alegria na busca de um prazer barato e raso. E muitos, ainda, se iludem numa ostentação drogada e doentia. Perdidos, buscam a resposta, com combo de absolut, de algo que nem sabem o que.
Amores encantados entram em cena. Poesia vivida. Greve sentida. Juventude alienada e perdida. Eleições. Esperança, mudança. Mudança. Mudança. Mundo, enfim, acabaria… porque só recomeçando para consertar a humanidade. E ele continua (e nós também).
Agora, espera-se uma nova forma de pensamento para expressar uma diferente conduta. Exemplificando-a. Que o natal não seja só consumismo desenfreado. Seja um momento de reflexão e melhoria íntima. Só reformando nossa atitude alcançaremos um mundo melhor. Não precisa de figuras religiosas ou citações bíblicas.
Quem controla o nosso destino? Nós. A culpa no outro é desculpa ou fuga. O norte é simples (e cristão): colocar-se no lugar do outro. Conseguimos fazer isto sempre? Não. Conseguimos TENTAR na medida de nossas possibilidades? Sim. Até quando fugiremos em escusas? O mundo continua. A vida é nossa. Ouça o chamado: – Escolha ser a mudança que quer pro mundo melhor. A maioria de nossas dores vem de nós mesmos. Mudemos com o mundo. Mudemos como o mundo. Mudemos para o mundo. Mudemos pelo mundo (melhor).





