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Nunca sei o que dizer – Renato Miguel

by em 07/07/2013

Eu nunca sei o que dizer. Eu estou ali. Ela está na minha frente, com a cabeça baixa debruçada sobre um livro. Uma mecha dos cabelos lisos cai preguiçosamente sobre a orelha. Ela mordisca, distraída, a extremidade achatada de um lápis. Ela nunca usa o lápis pra rabiscar o livro. Diz que não quer machucar as páginas. Quero dizer algo, mas ela não me dá atenção, por isso fico quieto. Pergunto-me se diria o que ando pensando caso ela me olhasse atentamente. Decido que não; com certeza não. Permaneço em silêncio, fingindo concentrar-me na minha própria leitura. O clima frio é uma bela desculpa pra que eu me levante. Vou à cozinha e tomo um gole de café. Vou ao quarto e jogo um casaco velho por cima dos ombros. Verifico e apago alguns e-mails. Ela continua ali, com o lápis na boca, o livro aberto e os óculos meio baixos sobre o nariz. As pernas estão esticadas sobre um colchão jogado no chão, uma cruzada sobre a outra, como dedos que fingem guardar um segredo. O meu próprio segredo continua bem fechado atrás dos dentes. Quero dizê-lo, mas ela não me dá atenção. Mas a verdade é que o que me falta não vem dela, mas de mim. Falta-me bravura. Ou talvez sobre bom senso. Essa é a eterna estrada bifurcada. O caminho do bom senso é geralmente mais seguro, confortável. Talvez apeteça mais aos covardes, alguém diria, não sem certa razão. No fim, hoje é um dia típico, seguindo conforme a cartilha de uma rotina inabalável; outro dia de silêncio. Ainda digo, ou melhor, tento dizer algo. As palavras saem claudicantes e morrem pouco depois de cruzar os lábios. Ela pergunta “O que é?”. Suspiro e respondo: “Nada. Só que hoje faz muito frio”. Encerro a conversa com um sorriso ligeiro e um tímido baixar de olhos. Mais um dia frio. Como tantos outros antes desse. Nada mudou.

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