A volta do grito ao surdo e da cor ao cego (Capítulo I [Parte 1]) – Thiago Amério
Em meio a volta daquela viela, no pôr do sol de junho, o cego, chamado Sioloé, homem nobre que sabia ver além, cantou em bom tom aos quatro ventos:
– Quem sabe dizer, de que cor é o amor? Então diz por favor… de que cor é então? É da cor da bondade, caridade e perdão…
O surdo, batizado de Efatá, observando aquele então desconhecido cantarolando, e como de costume, apesar de sequer ouvir (ou perceber sua cegueira), julgou-o como doido. Pensou consigo:
– Como pode, um homem tão bem vestido, de óculos escuros, bem na hora da saída, gritar aos ventos só?
Como não compreendia a diferença entre grito e canto, o surdo que não lia, continuou varrendo a rua, como há muito tempo fizera, desde quando tinha, gesticuladamente, pedido (e recebido) ajuda do prefeito logo após a morte de sua mãe (solteira) que na época servia leite ao governo municipal.
Ao passo que Sioloé cantava Efatá varria.
