Poema Não Escrito – Carla Guedes
Ontem rasguei um poema. Coisa séria, gravíssima! É então para esse poema ido para os recônditos da esquecibilidade, que quero dedicar este pequeno outro, inscrevendo-o na lápide imortal do tempo.
Poema não escrito:
Que tua existência efêmera não tenha passado ilesa.
Que teu tema não desenvolvido,
Talvez porque eu o tenha julgado sem dignidade,
Tome parte dos recantos onde os temas amadurecem;
No céu dos versinhos perdidos.
Que teu arranjo disforme de vocábulos
E que o instante em que a inspiração conspira
Não tenham sido em vão, mera obra do acaso,
Mas matéria viva pro crescer poético
Onde as métricas transmutam e se transformam
No solo fértil adubado de consoantes.
Poema não escrito, rasgado de tua existência:
Que teus cortes e lascas de sílabas,
As quais desunidas já não formam estrofes,
Possam além da minha memória reinventar-te
Dilatando-o em uma sobrevida outra;
Para além de significâncias e metáforas obsoletas.
Poema sem nome, que teu almejar poético
Tenha sido o maior de teus feitos.
Não nasceste para ser relegado às gavetas,
Nem tão pouco aos livros empoeirados de estantes.
Nasceste e murchaste como a flor perene,
Que mesmo breve, vale eterna o colorido instante.
Carla, mais uma vez, ótimo!!!!
Show de bola!
Carlinha, fabuloso! Penso como seria o outro poema, se o que o revive já traz em si tanta vida, tanta forma, tanta intensidade!