Um domingo e um violão – Renato T. de Miguel
Essa era a cena: um domingo, um sol honesto, e cerca de dez ou onze pessoas sentadas sobre cadeiras de plastico em um quintal de uma bela casa localizada em um bairro de classe média. Havia cerveja, refrigerante e o ar esfumaçado recendia à carne na brasa. Quatro crianças – dois meninos e duas meninas – corriam em volta, segurando pistolas d’água devidamente descarregadas. Não havia música, ainda.
O aniversariante trajava uma camisa amarela, em cujo centro figurava uma cruz de malta vermelha coroada por algumas estrelas douradas. Entrou em casa e voltou alguns segundos depois, trazendo na mão direita um grande volume negro, como uma maleta. Dali, retirou um bonito violão encordoado em aço. Sentou-se em uma das cadeiras de plástico e se pôs a dedilhar o instrumento, ao mesmo tempo em que torcia as cravelhas à procura do som correto. À sua frente, postava-se a estante que suportava o caderno que continha as partituras. As folhas restavam amarelecidas pelo tempo. Achei que o apego àquele velho caderno sugerisse a existência de um sonho deixado para trás. Hoje é engenheiro, mas talvez quisera ser músico.
Começou a cantar. Os dedos se moviam rapidamente por sobre as cordas do violão, produzindo um som agradável. A face do músico era versátil, e ia se alterando conforme a entonação empregada em cada acorde, estampando nas linhas de seu rosto os sentimentos evocados pela canção.
O pai do aniversariante, empunhando um copo de cerveja, expressava seu orgulho pelo rapaz. Inflou os pulmões e falou sobre a profissão de engenheiro, e em como se orgulhava por seu filho ter frequentado a UERJ. O sentimento paterno era tocante e genuíno. Muitos anos haviam-se passado desde que o aniversariante se graduara em engenharia, mas aquele orgulho parecia inesgotável nas palavras do pai. O músico parecia não ouvir e, se escutara, demonstou apenas com o deleite já ostentado pelo som de sua própria música.
As canções continuavam, uma após a outra. O repertório era extenso. Ia de Chico Buarque a Beth Carvalho; de Raul Seixas a Luiz Gonzaga; de O Rappa a Legião Urbana e Cazuza. As pessoas ouviam e aplaudiam após cada música. Aplaudiam, bebiam, comiam e conversavam. E o músico não se cansava.
Em dado momento, as pessoas não mais prestavam a devida atenção ao som da voz e do violão. Uma tia embriagada estourava os balões vermelhos com um grande garfo de churrasqueiro. Isso não importava, todavia.
A música já havia cumprido o seu papel. Em seu aniversário, aquele engenheiro havia nos dado uma tarde tornada bela pelo som de sua música. E eu, há três meses do meu próprio aniversário, escrevo isso para dizer: obrigado.
Macaé, 18 de março de 2012
Muito bom! Mas se eram 03 crianças como seriam 02 mulheres e 02 homens?
ah, pode crer hahahaha. Eu já havia corrigido isso, mas no arquivo de onde eu colei permaneceu esse erro hehehe. Será prontamente reparado. Vlw pela observação.
Muito bom!