atenção humana
chamejando cabeças
além da vida mundana? Que seja a beleza natural
Mista do oriente
no ocidental
Vinda do globo
o país azul Do teatro velho
Do centro urbano
Ao som do clássico-contemporâneo
de um piano Com letra poética sincera
Com cinema e balada barata
da classe média Cerveja em copo
e café na média Há nada para desfazer
O povo gosta de comédia
Pão com manteiga e prosa
Nos balcões de boteco e novela nova
dos centros de mão de obra Obras que precisam de mãos
Mãos que o metrô transporta Que no asfalto rolam em pneus
de borracha amazônica velha
do comboio apertado
Na floresta empedrada cinza Floresta da massa agitada
Pelo domingo de urna
Pelo rebaixamento do time
Que o povo cordial
não pode ver engolido
Isso vai ser revertido! Num próximo domingo Quando houver um bom motivo
Pra alegrar tantas mãos e braços
Que todo dia acorda pobre
E dorme cheia de arte
de viver
na cidade
Mas, a partir do momento em que abrimos os olhos para o mundo, em que amamos, nos revoltamos, em que procuramos e descobrimos as respostas para nossas tantas perguntas (assim como encontramos novas perguntas), aprendemos um pouco mais sobre o que é a vida. E, então, nos inspiramos… A mudá-la ou a lutar pela permanência daquilo que a gere – que gere vida em abundância (afinal, só em abundância a vida é vida. A “vida” excludente, que se diz de qualidade apenas para uma parcela das pessoas, é morte alheia e morte dessa própria parcela). Quando a Indiferença toma lugar em um ser, ele deixa de existir.
Afinal, quem não enxerga (o que acontece à sua volta), quem não ouve (o que o mundo grita), quem não sente (os sentimentos alheios e próprios), quem não age (em prol da vida), se não está em estado vegetativo… Está morto.
O sol e o calor, potencializado pelo alumínio e pela borracha que estofava os assentos do ônibus, eram os componentes clássicos de mais um dia de trabalho na cidade. O transporte público é a via necessária à persecução do pão diário e nele misturam-se todos os tipos de pessoas. É a miscigenação dentro de um povo miscigenado, verdadeira e plena comunhão de vida. Mas essas são considerações por demais profundas, não muito adequadas a um dia de comum labor. A bem da verdade é que os pensamentos, ali, mais certamente orbitavam em torno do calor, do ligeiro e insuficiente café da manhã e do provável atraso diante da necessidade de tomar duas conduções até o serviço. Os meus, por certo, eram dirigidos ao apertado espaço que me sobrava no corredor, pequeno demais para que eu me movesse ou tirasse um livro de dentro da mochila. Nesse momento, o ônibus parou em um ponto e dois rapazes entraram. Um deles, que levava um meio caixote pendurado ao pescoço, cheio de guloseimas, foi para o fundo do carro, enquanto o outro permaneceu próximo à roleta, pediu atenção e passou a falar em voz alta. Anunciou que vendiam doces e que o dinheiro arrecadado seria destinado a uma instituição voltada ao tratamento de crianças dependentes do uso de crack. Falou das qualidades da instituição e da transformação que operara em si mesmo. Olhei em volta, meio que institivamente, e notei que poucos prestavam alguma atenção ao rapaz, ou fingiam não prestar. Olhavam para os lados, encarando a paisagem urbana que passava veloz lá fora. Um sujeito de idade ao meu lado disse-me ter certeza que o homem usaria o dinheiro para fumar maconha. Outros também o olhavam desconfiado. E porque não deveriam fazê-lo? O moleque era preto, pobre, estava mal vestido e os pés estavam sujos. Devia arrumar um trabalho decente, era isso que tinha que fazer. Não daríamos nosso suado dinheiro, nem mesmo cinco reais, para comprar um chaveiro em formato de uma pequena caravela. Mais depressa pagaríamos oito reais em uma garrafa de cerveja, que era refrescante e se adequava bem ao calor. E que se danem as crianças dependentes de crack e os demais drogados dessa cidade. Cada um é refém de suas escolhas. A vida é um duelo multitudinário em que a cada um é dado um escudo chanfrado e uma espada cega. Sem dúvida a maioria ali acreditava nisso, ainda que não nestes termos. Ainda que não conscientemente. Perguntei a mim mesmo no que eu acreditava. Se éramos também responsáveis por aquelas crianças. Por todos os vícios que alimentávamos e que fingíamos não enxergar. Não tinha maturidade pra decidir, concluí. Comprei um chaveiro em forma de barco e um pacote de chicletes, por via das dúvidas. Talvez não tenha salvado criança alguma, tampouco recuperado algum cidadão corrompido, mas senti em mim mesmo um reforço no espírito de cidadania; abracei um pouco mais o ônus da vida em sociedade. Às vezes o inseguro altruísmo travestido de esforço humanitário é a única solução digna. Desci do ônibus, mas ainda fazia muito calor.
Há um ditado que diz que, ao chegar ao fim, tendemos a pensar no começo. Não está longe de ser verdade, pensou o velho, do canto do seu sobrado em Vila Isabel. Chamavam-no velho Guerra. Do alto dos seus oitenta e quatro anos, enxergava claramente o fim da linha; mais do que enxergar, sentia-o em cada osso e músculo do corpo; sentia-o no andar vagaroso, na fala arrastada e na visão embotada. Meditar sobre o começo era um exercício de auto-punição, um desenvolvimento forçado de auto-crítica. Seu pai certa vez lhe disse que a humildade era a qualidade primeira de quem é sábio. Nunca ligou pra isso, porque o próprio pai nada tinha de sábio ou humilde, posto que dizia essas palavras enquanto oleava os cabelos e ajustava a gravata ao terno branco, apenas para sair rua a fora e voltar, dias depois, cheirando a todas a mulheres das quais se gabava de ter conquistado. De seu pai, no entanto, herdou apenas o culto a si mesmo. Não foi agraciado com a vivacidade do espírito, tampouco com o talento para o amor. Mas isso velho Guerra não lamentava. Nunca teve vontade de ser a imagem do pai. Saíra mais à mãe e se orgulhava disso. Era mulher trabalhadora e muito séria, não se apegava às pessoas, nunca a viu chorando, nem mesmo quando o pai vestiu o terno branco pela última vez e nunca mais retornou. Mas não se entristecia por nada que seus pais tenham lhe feito; passara a reprovar, isto sim, o que fizera da própria vida. O que tinha obrado movido por orgulho, hoje parecia vazio, uma bolha no passado, e o que fez por ser mesquinho, sovina e muitas vezes cruel, tornou sua alma um salão cinzento. Agora pensava, não sem certa amargura, que arrependimento era uma manifestação de humildade, embora não se sentisse mais sábio por isso. Na verdade, sentia um desejo quase infantil de ser visto, entregar seu sofrimento ao mundo como pagamento por tudo o que havia sido. Mas qual seria a utilidade? Não há lágrimas mais sinceras que aquelas que ninguém vê.
Agora, olhava pra trás e via uma estrada deserta: cultuara a própria imagem, agora não tinha cabelos e na boca já lhe faltavam os dentes; fora mesquinho, porque se lhe tomassem o direito, diria aos juízes: “nobres julgadores, venho perante vós requerer apenas o que por direito é meu, e muito embora, para tanto, possa faltar-me o saber das letras e das leis, minha razão, ao revés, segue inabalada”; mas a um igual bradaria “dê-me o que é meu ou te mato tão depressa que não saberás o que passou”. Fora cruel, porque tantas vezes entregou seu desprezo camuflado em um sorriso fácil.
Ah, como fui vil! Há horas que não adianta explicar que um santo é, antes de tudo, um pecador. Mas Deus há de perdoar, pensava o velho Guerra. Dizem que o criador é alguém que tudo perdoa, afinal, ele é o grande inventor do perdão. Acreditar nisso era reconfortante. Passara até a crer em Deus. Não devia ser tão tarde. Comprou até uma bíblia usada e a colocou no criado mudo. Nunca chegou a ler, pois era alérgico a toda aquela poeira de livro velho, mas a deixava ali e de vez em quando olhava pra ela.
Saiu de casa para ir à Praça Barão de Drummond. No corredor, acabou esbarrando em uma senhora que morava embaixo, derrubando suas sacolas e seus tomates. Sentiu-se compelido a dar-lhe bom dia e seguir seu caminho, mas resolveu ajudá-la a recolher as frutas. Vai que Deus realmente está olhando, pensou.
Há dias em que o marasmo é o destino mais doce. Num deles o cenário era composto por uma tranquila porção de areia fina, sol, água salgada e uma brisa morna. Havia uma canga estendida por baixo, e ali eu estava sentado. E lá também estava ela. Nos meus braços eu envolvia seu tronco macio e esguio. Seu cabelo vez ou outra lambia meu rosto ao sabor do vento brando que varria o lugar. Ao lado e à frente um menino empenhava-se em erigir um castelo na areia. Era bonito vê-lo trabalhar tão avidamente com a pazinha e um pequeno balde azul. Canudos com listras vermelhas adornavam as muralhas e um fosso foi cavado em volta.
Fechei meus olhos ao redor do lindo rosto e aprisionei seu sorriso. Respirei fundo, absorvi o perfume e sorri pensando que na minha mente eu também erguia meu próprio castelo. Dos delicados ombros dela eu fiz minha muralha; de seu coração fiz minha cidadela; dos braços, as mais altas torres; dos cabelos, meus estandartes. E nos lindos olhos eu ousei fixar o meu trono, onde eu repousaria até que não mais fosse rei, ou até que uma onda levasse em suas espumas toda essa doce ilusão.
Um poeta nunca morre enquanto for inspiração para poesia-amor…
Qual a força que a um verso se destina, se sabe que é verso e quer voar? Todo verso tem bem mais que tinta e rima, tem um coração a extravasar.. Versos sempre tem bem mais que um destino… Tem a sina de ter sempre AMOR para dar… Entristeço quando versos de menino, mesmo lindos já precisem descansar![]()
Pra começar, é certo dizer que eram escuros, mas bem destacados contra o globo branco. Brilhavam, embora os músculos em volta sugerissem algo de triste. Eram grandes. E eram muito belos. Dizer que eram olhos de lince seria um velho clichê. Seria verdadeiro, no entanto; e talvez fosse até adequado. Mas não quero falar do rosto que coroavam, quero apenas falar dos olhos. Não que o rosto não seja digno de nota, mas com eles, talvez, tenha usado já bons – e suficientes – litros de tinta. Longos cílios se beijavam quando as pálpebras piscavam e, às vezes, uns fios de cabelos pretos caíam por cima quando a cabeça se movia, mas mãos delicadas logo tratavam de levá-los de volta para trás das orelhas. Eram olhos tranquilos, porque destoavam do que estava por baixo. Eram fixos. Conscientemente fugiam aos meus. Decididamente cortavam-me a carne. Muito sabiamente mandavam-me embora.
Pedro parecia, maresia morta, mudo como porta, coitado.
Pedro pescador, os seus cabelos que são tão brancos, já não são como a noite que vem.
Pedro, ansiedade de partir, pegar sua vela pra navegar também.
Pedro, tem saudades da maré, sob a areia clara de pé e uma santa na mão.
Pedro, não sorri não pois tem o seu mar no coração.
Pedro ancorado chora quase sem perceber.
Pedro parado pregado na praia vê:
– uma nuvem no pôr do sol e o seu filho no mar azul ajoelhado pra rezar…
Pedro pescador junto ao cruzeiro do Sul.
2º lugar no festival do automóvel clube fluminense em Campos dos Goytacazes faz mais de 30 anos.
É tudo a moda Bangu.
Fazem de qualquer jeito
e alguém segura o caju
ou o fogo no meio do peito.
É tudo feito no jeitinho
fio por cima de água
choque na mão pra testar
amperímetro só pra fingir
e e.p.i. só pra sair na foto.
Aliás, admira muito o fato
de não acontecer mais desgraça
porque do jeito que a coisa é feita
era pra ter fogo de segunda a sexta.
Mas vou fazendo a minha parte
e se um dia o incêndio bate
mesmo daquilo que deve fazer frio
saio correndo primeiro
não sou metido a herói bonzinho.
Ps. Engraçado que ninguém tem culpa
e é tudo impune



