Assim foi um dia ao lado dela. Às nove deu bom dia para a mãe; às dez xingou um ciclista na calçada. Às onze explodia em energia, ao passo que ao meio dia bocejava. Às treze se pôs a admirar um pássaro, mas às quinze chutou um cachorro. Às quatro me afagou os cabelos; às cinco me arranhou os braços. Às dezoito amava John Lennon, às sete, no entanto, queria morto Paul Mccartney. Às oito ela queria carinho, já às nove, queria distância. Às dez horas meu de um beijo, às onze, todavia, me tomou a alma. Essa era a dualidade que me consumia e me encantava. De madrugada, sem ela, me deitei na cama, e ao meu lado avultava a janela. Olhei para a noite e vi apenas uma lua – não podia ser o bastante, pensei. Dormi sorrindo. E acordei sonhando.
A expectativa e a decepção:
o sim e o não
palavras em vão?
Alguém sabe se são?
Não!? Vos digo então!
Expectativa é o sim
e, até onde sei por mim,
pode ser o fim…
Porque a finalidade assim,
do tipo que se espera da vida,
é reiteradamente enriquecida,
com a vontade, jamais esquecida,
de um etéreo querer abstrato…
Como aquele de olhar um retrato,
imaginando o que quiser do futuro,
e mesmo se virar o escuro,
não importa…
Pois de porta a porta,
se há ou não cura…
vale só essa moldura:
(representante da aventura
e por vezes destemida),
de dar valor a vida!
Entretanto…
Decepção é o não,
porquanto:
demonstra toda frustação,
quando o sim,
impulso pra vida,
vira o fim –
da mágica ida;
ou até de uma poesia
decepcionada se não lida! –
Elas iam de mãos dadas pela calçada em seus vestidinhos rodados da mesma cor. Cada vestido com seu detalhe. Um tinha laços de cetim, outro, grandes botões e o outro, aplique prateado. Os cabelinhos em presilhas delicadas que o vento e os dedinhos da mais nova teimavam em desconcertar. A mãe, atrás, orgulhosa, segurando com uma das mãos a sacola com pães quentinhos e a outra, segurando a barriga como se, pequena ainda, fosse cair.
Elas iam de mãos dadas, com os vestidinhos sujos pelo dia, alguns joelhos ralados e os cabelos soltos das presilhas, que não resistiram. A mãe, atrás, segurando uma caixinha de leite e uma barriga que parecia maior e já se mexia.
Elas iam de mãos dadas, já banhadas, com outros vestidinhos que a própria mãe havia costurado sentar na praça para ver a lua cheia. A mãe, atrás, garantido um pacote de feijão em uma das mãos e a outra acariciando a barriga que teimava em encurtar o vestido.
E elas iam de mãos dadas em seus vestidinhos cheios de movimentos, pela calçada aquecida pelo sol. Cada vestido com seu detalhe, um com um aplique de flor, outro com botões coloridos, outro com lacinhos em forma de borboleta e o outro, bem pequeno, com um bordado amarelo. A mãe orgulhosa, atrás, com as mãos ainda vazias e sorrindo, olhava o céu, como a agradecer.
Alice Rangel Ney
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Essa era a cena: um domingo, um sol honesto, e cerca de dez ou onze pessoas sentadas sobre cadeiras de plastico em um quintal de uma bela casa localizada em um bairro de classe média. Havia cerveja, refrigerante e o ar esfumaçado recendia à carne na brasa. Quatro crianças – dois meninos e duas meninas – corriam em volta, segurando pistolas d’água devidamente descarregadas. Não havia música, ainda.
O aniversariante trajava uma camisa amarela, em cujo centro figurava uma cruz de malta vermelha coroada por algumas estrelas douradas. Entrou em casa e voltou alguns segundos depois, trazendo na mão direita um grande volume negro, como uma maleta. Dali, retirou um bonito violão encordoado em aço. Sentou-se em uma das cadeiras de plástico e se pôs a dedilhar o instrumento, ao mesmo tempo em que torcia as cravelhas à procura do som correto. À sua frente, postava-se a estante que suportava o caderno que continha as partituras. As folhas restavam amarelecidas pelo tempo. Achei que o apego àquele velho caderno sugerisse a existência de um sonho deixado para trás. Hoje é engenheiro, mas talvez quisera ser músico.
Começou a cantar. Os dedos se moviam rapidamente por sobre as cordas do violão, produzindo um som agradável. A face do músico era versátil, e ia se alterando conforme a entonação empregada em cada acorde, estampando nas linhas de seu rosto os sentimentos evocados pela canção.
O pai do aniversariante, empunhando um copo de cerveja, expressava seu orgulho pelo rapaz. Inflou os pulmões e falou sobre a profissão de engenheiro, e em como se orgulhava por seu filho ter frequentado a UERJ. O sentimento paterno era tocante e genuíno. Muitos anos haviam-se passado desde que o aniversariante se graduara em engenharia, mas aquele orgulho parecia inesgotável nas palavras do pai. O músico parecia não ouvir e, se escutara, demonstou apenas com o deleite já ostentado pelo som de sua própria música.
As canções continuavam, uma após a outra. O repertório era extenso. Ia de Chico Buarque a Beth Carvalho; de Raul Seixas a Luiz Gonzaga; de O Rappa a Legião Urbana e Cazuza. As pessoas ouviam e aplaudiam após cada música. Aplaudiam, bebiam, comiam e conversavam. E o músico não se cansava.
Em dado momento, as pessoas não mais prestavam a devida atenção ao som da voz e do violão. Uma tia embriagada estourava os balões vermelhos com um grande garfo de churrasqueiro. Isso não importava, todavia.
A música já havia cumprido o seu papel. Em seu aniversário, aquele engenheiro havia nos dado uma tarde tornada bela pelo som de sua música. E eu, há três meses do meu próprio aniversário, escrevo isso para dizer: obrigado.
Macaé, 18 de março de 2012
Paz
Nós
“Faz”,
Jaz?
Não!
Paz
Nós
“Quis”…
Sim!
Paz
Nós
“Diz”:
– Mais!
Pra
Mim
Fim!
Vai aí um poema de lavra do chileno Pablo Neruda. Abaixo segue um vídeo no qual ele é declamado.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos.”El viento de la noche gira en el cielo y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.Ella me quiso, a veces yo también la quería.
¡Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos!Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.¡Qué importa que mi amor no pudiera guardarla!
La noche está estrellada y ella no está conmigo.Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.Yo no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise..
Mi voz buscaba al viento para tocar su oído.De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
Pablo Neruda, poeta chileno (1904-1973)
Durmo. Peguei a minha bicicleta, abri o portão, atravessei-o e fui pedalando. Segui em frente, virei à esquerda e subi a ladeira. Fiz um grande esforço e minhas pernas doeram. Minha bicicleta não é das melhores – minhas pernas também não, pensei, abrindo um sorriso.
Desci a ladeira em uma velocidade libertadora. O vento lambia os meus cabelos para trás, chicoteando as minhas orelhas. Às vezes sonhava em voar. Imaginei que era um bom modo de tornar estes sonhos realidade: correr com a cabeça erguida contra o vento. Um dia farei isso.
Voei por algumas dezenas de metros e subi outra ladeira, em direção à civilização. A lua era o meu guia e nesse dia ela era uma perfeita bola de gelo acima de mim, brilhando em sua pálida nitidez. Meu caminho era irregular. As ladeiras eram íngremes e, as descidas, esburacadas. Descia em pé na bicicleta e minhas pernas faziam as vezes de amortecedor. Uma mente divagante imaginaria a probabilidade de ser tão prazerosa a conjugação de alumínio, vento e gravidade. Fugi desse pensamento.
Cheguei onde viviam pessoas. Havia casas, prédios e grandes salões comerciais, que já se encontravam fechados, pois a noite já avançava bem sobre o dia. Pedalava naquela cidade desconhecida, em meio a pessoas desconhecidas. Eu as via, mas não era visto, talvez isso fosse injusto, mas minha função não era dar justiça. E não queria pensar sobre justiça. Queria algo mais simples: pedalar e seguir o vento.
Essa noite eu tinha todo o tempo do mundo, pois nos mundos oníricos o tempo é mais generoso. Fui em direção às luzes da estranha cidade. Algumas eram brancas, outras amarelas e as minhas preferidas eram as verdes. Onde havia luzes também havia casas e muitas pessoas caminhavam na rua, apesar da hora. Também havia música, e em meus ouvidos, Marcelo Falcão berrava “Não tenho pressa, não tenho plano, não tenho dono”. Ninguém parecia ouvir a melodia e a letra, acho que elas só ecoavam dentro da minha cabeça – isso, sim, me pereceu injusto.
Pedalar era um excelente meio de pensar. O vento frio açoitando o meu rosto ajudou-me a clarear a mente. Minhas pernas impulsionavam a massa de carne e alumínio à frente, e a cabeça impulsionava as ideias, que voejavam por sobre o que eu veria quando acordasse. Assim, ignorando as luzes verdes, pensei em tudo. Pensei em como as escolhas tinham-me feito e até onde haviam-me empurrado – poderia ser pior, concluí. Pensei no futuro, imaginando o que seria feito dele. A ambição nos sonhos se tornava um pouco letárgica, o que me fez divagar se não deveria ser o contrário. Se meu lugar no futuro estava reservado, ou se o caminho já havia sido escrito, pouco me importava naquela cidade de estranhas luzes. Em minha pequena experiência de homem vivo, achava que projetar os tempos vindouros era um exercício fútil. Achava que as pessoas eram movidas por desejos imediatos, que lhes davam uma ilusão sobre o que queriam para o amanhã, de sorte que eu mesmo não me planejava – não conscientemente, pelo menos. Viver corretamente cada dia deveria ser o bastante. O futuro me dirá se tenho razão.
Segui refletindo.
Pensei nela, nos olhos e cabelos escuros, na pele clara e no sorriso mais branco que a paz. Na voz feminina, no cheiro de coco e sabonete. Nas mãos pequenas, macias e mornas. Pensei nos lábios rosados, tentando lembrar da sensação de quando tocavam os meus; fechei os olhos, abrindo-os logo em seguida, pois tive medo de acordar. Pensei em como era bom pensar nela, e desejei, com certa vergonha, saber se também pensava em mim.
Pensei em como eu era, em como era difícil estar satisfeito. No início da saga, contentava-me com o brilho das estrelas, agora, no entanto, ansiava pelo calor do sol. Pensei em como eu gostaria de ser diferente; depois pensei em como seria maravilhoso ser eu mesmo em um mundo diverso, mas que não fosse feito de sonhos, pois neste eu pedalava sozinho.
Este era o grande desafio, meditei. Contentar-me. Encontrar meu lugar no mundo e me postar sobre ele até que adquira a forma dos meus pés. Saber que não verei esse mundo perfeito e nem mesmo os melhores lugares do meu próprio mundo. Contentar-me em abrir os olhos e procurar minhas próprias luzes verdes, e se não forem verdes, amá-las mesmo assim.
Continuava. Estes pensamentos haviam melhorado meu equilíbrio. Pedalar tinha se tornado mais fácil, e minhas pernas não mais doíam. O meu tempo terminara, no entanto. Era hora de abrir os olhos. E assim eu fiz. Abri os olhos e procurei as luzes. Nada encontrei, pois estava escuro. Levantei, lavei o rosto e encarei o espelho. Nada do que se podia ver mudara.
Acordado, peguei a minha bicicleta, abri o portão, atravessei-o e fui pedalando. Segui em frente, virei à esquerda e subi a ladeira. Eu era o mesmo, mas o mundo parecia um pouco diferente. As luzes sem dúvida não eram as mesmas. Continuei pedalando e segui adiante, esperando que esse fosse um dia em que eu não desejasse sonhar.
16 de março de 2012
porém em réplica,
sempre na métrica,
digo-lhes minha ética:
No luar de quase dez e meia,
quando o tudo até acontece
(para alguns chega e desaparece),
principalmente em noite de lua cheia,
quedo-me inquieto na vida mundana.
Pois, é neste ambiente (quente e “caliente”)
que a vida vai se perdendo inutilmente,
nas passadas daquelas “gente”,
capaz de só observar a margem do superficial,
com um: – tô legal,
proveniente de som, mato, cevada ou vodka –
amantes da continuidade desta vida módica.
Aline Calixto está entre BH e RJ, mais ou menos o modo como este instrumento (blog) começou.
Com esta letra contra orgulho a apresento:
Você sabe perder
Tem fé pra recomeçar
O difícil pra você
É saber ganhar
É saber ganhar
Se você perde
Na humildade se apresenta
E de novo você tenta
Sem vaidade e sem rancor
Mas quando ganha
Chega a me causar espanto
Pois seu ego infla tanto
Pensa que é superior
Põe sua cabeça no lugar
É fácil saber perder
Difícil é saber ganhar
Um era sério, o outro andava reto, o terceiro era esperto e o último (que não era último) era muito sincero. Se conheciam bem, visto que eram irmãos. Uns, irmãos em sangue, outros, irmãos em Deus. Não havia lá muita diferença. Não andavam juntos. Nem sempre conversavam, mas, sem dúvida, se amavam, já que eram irmãos. Às vezes eles brigavam, e quase sempre se xingavam. Se um caía, outros três o levantavam, porque eram irmãos. Eram irmãos e só isso importava; nenhuma pergunta havia de ser suscitada. Não há dúvidas quando se conhece a estrada. E não há solidão quando se tem um irmão.
O mar devia ter um cheiro bom e a areia ser fofa. Imaginava também que suas águas deveriam ser quentinhas e brandas. Como uma família. Nesta ocasião, eu ainda não sabia que podiam existir vários tipos de mares e praias. Mas já sabia que uma família podiam ser várias. E eu, não conhecia o mar.
Um dia entrei no ônibus verde, o mesmo que eu sempre pegava para ir à escola e não desci no ponto como de costume. Quis ir até o final. Neste dia resolvi vê-lo de perto.
A cidade era pequena e margeava um rio. O cheiro do rio eu sabia. Eu tinha medo de atravessar a ponte. E não queria saber se suas águas eram quentes. Brandas não eram. Muitas famílias tinham perdido muitas coisas. E, eu sabia, o rio havia separado a dona Rosalina do seu Joaquim.
Quando desci no centro da cidade, fiquei um pouco confusa com tantos vendedores. O ar cheirava à pipoca e a milho verde. Mas o rio ainda estava perto. A avenida principal ficou para trás e eu desci a rua da livraria.
Passei pela rua dos escravos e pela rua do presidente e dei a volta no prédio dos correios. Logo a seguir, após a banca e os bancos eu chegaria à praça. Ao lado ficava a igreja e mais adiante as lojas. Eu não via os sapatos e bolsas. E ainda não sentia o cheiro de café. Só esperava ouvir as badaladas. Hoje eu iria procurá-lo.
Rosalina não falava mais nele, acostumou-se a calar. Havia tanto tempo, eram jovens. Ele decidiu atravessar o rio e ela precisou ficar. Eu pensava nela porque ela também não conhecia o mar.
Eu sabia que o prédio ficava ao lado do correio e que era na praça que eu o veria. Mas hoje eu iria tocá-lo. Mas não estava na hora. Seria somente após as seis badaladas.
Sentei-me num banquinho. Eu ainda esperava um cheiro e um som. Um grupinho de crianças mal-vestidas brincava na fonte de um lado e no outro havia pessoas vendendo cartões postais. Sentada no banco comigo havia uma velhinha tricotando, mas ela não me lembrava Rosalina.
Após o entardecer, o vento soprou com mais vontade avisando aos carteiros, vendedores, bancários, aos crentes, aos transeuntes e às crianças que estava na hora de ir para casa. A velhinha ao meu lado, após falar qualquer coisa comigo, se levantou. E eu comecei a sentir o cheiro do café preto forte que os homens gostavam de tomar àquela hora.
Ergui o pescoço para vigiá-lo de longe. Sei que logo ele chegaria. Desceria do prédio e seguiria o caminho do café.
Rosalina não sabia que eu estava ali, mas também não ignorava. Ela deveria estar em casa e talvez pensasse nos filhos, porque não os perdeu para o rio. Eles também atravessaram a ponte. E voltaram para buscá-la. E agora, nós, os netos, não sabíamos nada sobre o outro lado.
Antes de soarem as badaladas eu me ergui para vê-lo chegar. Eu o sabia todo encurvado e de cabelos branquinhos. Estaria de terno e andaria devagar. E não estaria sorrindo.
Depressa, a praça ficou cheia dos outros homens que também já haviam se liberado dos labores diários, e eu fiquei com medo de perdê-lo de vista. E eu havia resolvido que naquele dia iria conversar com ele.
Imaginei ele descendo o prédio, virando os correios e indo, lentamente, pedir seu café preto forte. Eu o vira poucas vezes e Rosalina sempre contava as mesmas histórias. Meu repertório sobre ele era pequeno. Era dentista prático no prédio ao lado dos correios. Casou-se de novo e morava em frente ao rio. E ele conhecia o mar.
E hoje, antes de pegar o ônibus verde, e após sentir o cheiro do rio novamente, ele me veria.
Quando finalmente ouvi por toda a praça as seis badaladas, vindo da igreja matriz, misturado ao café e trazidos pelo vento até a mim, corri até ele. Cheguei bem perto daquele homem, aquele mesmo homem que um dia escolheu outra vida, e disse:
_ Vô, me leva para conhecer o mar?
Alice Rangel Ney
A manhã era quente, porque era novembro, e o firmamento não ostentava nuvens, apenas o azul celeste embrulhava a terra.
Eu encarava a tela do computador, digitava uma peça para o estágio; uma atividade corriqueira num sábado. Ouvi um estampido, do tipo que ocorre quando algo ruim acontece. Meu irmão saira de casa não há muito tempo. Corri para a rua num ímpeto. O ônibus já havia partido, e não havia sinal dele. Meu estômago se alegrou num alívio conhecido.
Uma pequena aglomeração formava-se na subida da ladeira. As pessoas rodeavam um carro, um celta preto. Ou seria um gol? Nunca fui bom em identificar modelos de automóveis. Aproximei-me, apesar de não ser muito curioso. Subi a ladeira e não olhava ninguém nos olhos, mas os ouvia murmurando. Cheguei ao carro. A vidraça dianteira estava cravejada de pequenos buracos, dos quais brotavam milhares de rachaduras que serpenteavam pelo vidro reforçado. A carne adiante seguia o mesmo exemplo, e havia sangue. O homem sentado no banco do motorista pendia debilmente para um lado, a cabeça meio tombada no ombro direito. Por que os olhos não brilhavam? Pensei infantilmente. Era mesmo um sorriso que se formava nos lábios entreabertos? Agora, apenas Deus poderia dizer.
Meti-me a dar ouvidos ao que os vizinhos diziam: “Estava devendo”, “batia na mulher”, “não era boa gente”. Parecia haver um consenso entre essas vozes.
Ouvi o segundo som que me marcaria o dia: um choro alto, parecia estar ungido mais de desespero e menos de tristeza – geralmente a tristeza chega depois. Vinha do lado direito da rua, e vinha de cima. Mais especificamente de uma varanda. E vinha de uma mulher, o que era pior. Estava grávida, o que era terrível.
Bons homens foram prestar-lhe ajuda. Os rugidos dela pareciam doer-lhe a garganta e a alma. A mim, sem dúvida, causavam dor nos ouvidos e no coração. Ela realmente apanhara do homem morto? A resposta parecia não lhe importar agora. Estava morto, e não era mais homem. Aos vizinhos isso muito significava e tudo dizia.
“Quem procura, acha”, asseverou uma senhora trajando um vestido estampado; as sobrancelhas soerguiam-se por sobre os olhos decididos. Devia ser verdade. “Quem procura, acha”. Agradavam-me esses jargões do cotidiano. Pequenas verdades já prontas para o consumo, e a nós basta repeti-las sem maiores reflexões. Pouco importava se tinha mulher e filho. O futuro a Deus pertence, e assim caminha a humanidade. As verdades fervilhavam nessas pessoas, afinal, nelas não havia pecado, pois o cordeiro de Deus naquele dia já fora abatido. Estávamos todos seguros. Éramos todos heróis e vibrávamos com a queda dos vilões, e estes faziam bem em cair, para o nosso bem.
Fui para casa, o dia havia terminado, mas ainda não era meio-dia. Terminei a peça, comi algo e não lembro o que era. Assisti televisão, naveguei na internet, talvez tenha visto um filme, não me recordo.
O dia terminara, mas a noite seria eterna, eu sabia. Não queria mais aquelas verdades imediatas. A mulher e a criança ousavam invadir-me a mente, impedindo-me de dormir, apesar do cansaço. Sabia que várias das pessoas que muito falaram de manhã encontravam-se imersas em sono tranquilo, como bebês, pois era madrugada. A mesma sorte não me honrava, mas essa honra eu não queria. Orgulhava-me dos meus olhos abertos. Era a minha liberdade. Não dormir era a última homenagem que eu prestaria àquela família. Permaneci acordado, na escuridão que envolvia meus lençóis, e abracei a minha insônia. A insônia dos justos.
Renato T. de Miguel
Macaé, março de 2012
A palavra que vos digo,
sem ao menos precisar,
sete letras pode ter.
Esta é só a informação,
prescindindo (de) explicação,
que os profanos podem ver.
E o porquê (com circunflexo),
de tão pouco (em meus versos)
é fácil de decifrar:
se é a cara do teu ser,
incapaz até de ver,
não importa o “arraiá”:
ou não tem pelo viver,
ou se ganha até morrer…
quem sou eu para julgar!
Encontro de natal 2010
Tudo começou com uma ilusão… Achou que era querido, muito estimado… Viveria sempre com a turma de amigos. Mas foi preterido, dispensado… A maioria não lutou para ficar do seu lado e não viu suas qualidades. Num jogo marcado ele se viu só. Numa noite de jogatina, roubos e álcool ( mais especificamente, amigooculto-roubado e licor no chocolate), ele não era a estrela. Todos os outros foram escolhidos antes dele.
Mas tudo bem… Ele não foi o escolhido mas foi a testemunha… Viu a amizade das seis contada através das quatro… Viu que o tempo e a distância não consomem a verdadeira amizade, que precisa só ser regada, alimentada (nem que seja com comida pedida em farmácia), que tudo poderia estar num livro (que provavelmente seria de auto ajuda e não romance) e alguém compraria pela internet. (Quem??? ). Teria, é claro, um capítulo especial para como se comportar num banheiro público, outro de como não arranjar saradões e ainda um de como ficar sumido sem dar notícias… É claro que também teria um de como conversar com a caneca. Acho que o livro terminaria com uma mega festa de 50 anos!
E finalmente ele ficou feliz, alguém o escolheu afinal. A pureza de uma menina de 2 anos, o reconheceu como um bom companheiro e o levou para sua mãe… Então ele viu o saco no chão, alguém em pior situação, pois ele ficou o tempo todo no sofá. Resolveu ajuda-lo a se reeguer na vida. O saco agora ficaria acima de nossas cabeças, na entrada da porta! E ele vai viajar, um conselho da psicóloga, para esquecer o trauma da rejeição. No roteiro estão planícies e praias… O saco continuará na porta, cumprindo seu papel de guirlanda, em todos os natais…
Em quem sabe, ele, o baralho, não conseguirá também cumprir seu papel?

