Ontem rasguei um poema. Coisa séria, gravíssima! É então para esse poema ido para os recônditos da esquecibilidade, que quero dedicar este pequeno outro, inscrevendo-o na lápide imortal do tempo.
Poema não escrito:
Que tua existência efêmera não tenha passado ilesa.
Que teu tema não desenvolvido,
Talvez porque eu o tenha julgado sem dignidade,
Tome parte dos recantos onde os temas amadurecem;
No céu dos versinhos perdidos.
Que teu arranjo disforme de vocábulos
E que o instante em que a inspiração conspira
Não tenham sido em vão, mera obra do acaso,
Mas matéria viva pro crescer poético
Onde as métricas transmutam e se transformam
No solo fértil adubado de consoantes.
Poema não escrito, rasgado de tua existência:
Que teus cortes e lascas de sílabas,
As quais desunidas já não formam estrofes,
Possam além da minha memória reinventar-te
Dilatando-o em uma sobrevida outra;
Para além de significâncias e metáforas obsoletas.
Poema sem nome, que teu almejar poético
Tenha sido o maior de teus feitos.
Não nasceste para ser relegado às gavetas,
Nem tão pouco aos livros empoeirados de estantes.
Nasceste e murchaste como a flor perene,
Que mesmo breve, vale eterna o colorido instante.
Dedicado a certas amigas enfermeiras.
Há algum tempo atrás, cinco amigas se encontraram em um fim de tarde, para uma conversinha com pão de queijo.
Havia algumas revistas e papéis na mesa e elas estavam sentadas no chão; ao fundo, o som de Paula Fernandes. Uma delas pintava umas caixinhas com as cores do natal e todas conversavam.
Estavam assim, quando Carmelita, a dona da casa, parou de pintar um pouco e deixando as caixinhas de lado, chamou as amigas para mostrar uns sabonetinhos que havia feito alguns dias antes, em duas cores (amarelo-jaca com azul-framboesa), embrulhados com celofane e lacinhos. Todas acharam que ela tinha muito talento para escolher cores.
Começou então uma música que Gilda adorava, e fingindo que uns dos pincéis era um microfone, cantou sozinha. As amigas acharam que ela ganharia o primeiro lugar se estivesse em um karaokê concorrendo com outras duas pessoas. Seu sonho quando menina era ser cantora e também ser dona de uma loja de sapatos.
Adélia achou muito legal descobrir estes talentos das amigas e perguntou para as outras o que elas sabiam fazer.
– Já fui campeã de forró… disse Pilar.
– Sou bonita e inteligente, disse Diana.
– …
– E também sei dançar hula-hula, dança do ventre e valsa de 15 anos. Pilar continuou.
– E eu, emendou Carmelita, joguei handebol, no gol. A bola tinha medo de mim… Caraca!
– Eu, falou Gilda, já ganhei um concurso de redação…
– Representei o forró na minha escola em várias viagens… Pilar continuava.
– E você Diana? Não sabe fazer nada? Insistiu, Adélia.
– Eu danço um pouquinho, canto um pouquinho… (na verdade, seu sonho era ter uma filha de olho azul…).
– Minha redação foi sobre o trânsito…
Carmelita interrompeu:
– Minha mãe também foi campeã de redação!
-…
– Eu tinha 10 anos, foi concurso municipal…
– Devia concorrer com três escolas!!!! Minha mãe foi nacional!!!!! Caramba!
– Um dia também dancei Foxtrote…
– E Diana não tem mesmo nenhum talento… conferiu Adélia.
– Calma, eu tirei segundo lugar na minha especialização…
-…
– Dança de salão… Viajei muito com a escola. Pilar, insistia.
– Ah, já salvei duas crianças nas piscinas…
– E esse é seu talento, Diana? Caraca!
– As pessoas bateram palmas…
– E eu tenho minha redação até hoje.
– Já sei! Ganhei três medalhas na natação! Esse é meu talento!
– E agora que você se lembra, Diana? Caramba!
– Tinha também a dança cigana, o bolero, balé…
– Já entendemos, Pilar!!!!!! Falaram todas.
– E você, Adélia?
Adélia,
Belo Horizonte, Dezembro de 2011.
“Você deve crer quando eu digo que estou combatendo os mortos”… Assim dizia a música pendurada aos ouvidos daquele garoto. Disseram que ele meditou sobre a verdade daquelas palavras. Disseram que o sol aquecia o vidro pelo outro lado da janela.
Não, não era verdade. Essa era uma batalha terminada já há muito tempo, disse o garoto a eles. Não mais combatia os mortos. A contenda foi, de fato, simples; muito mais do que imaginara a princípio, afirmara. Nem cicatrizes dela disse ter levado, de modo que talvez nem lembrasse porque esteve lá, ou se realmente esteve. Tudo isso o garoto contou.
Sentimentos mortos… qual a diferença entre esse perecimento e aquele físico que assombra realmente as nossas vidas desde os primórdios? Perguntou aos que o miravam, retribuindo os olhares um a um. Para alguns, a diferença acabava se tornando precipuamente prática, porque o efeito é similar, disse. Para ele? Não dispendia mais tempo meditando sobre isso, respondeu. Imaginava que caminhava num mundo de vivos, de modo que os mortos, ainda que feitos de sentimentos, não ocupavam mais espaço em seu estômago do que uma pequena aflição imotivada do tipo que geralmente chega aos domingos.
Contou que um dia lhe disseram que viver era melhor que sofrer. Não conseguia afirmar se isso estava ou não correto, pois não mais se recordava do acerbo gosto dos dias ruins. Acordava e só enxergava vida; ia caminhando na esteira dos vivos, sentindo o renovado sabor que um dia lhe negaram e que, sinceramente – ele asseverou aos que o olhavam –, agradecia que o tivessem feito.
E continuaria agradecendo até que parasse de viver, conforme disseram.
Acreditar
Simplesmente acreditar
Amar, escutar, respeitar
Respirar o mesmo ar
Um universo de possibilidades
Repleto de amabilidade
Ainda vazio
Cheio da falta de amor
Companhia que por si só não basta
Insistência que desgasta
A esperança que te leva pro “céu”
Combatida pelo descaso que te deixa ao léu
Diferenças que encantam
Similaridades que espantam
Compreender, mas não sei por qual via
Conviver com tamanha idiossincrasia
Apesar de toda dor
Continuo a acreditar no que sou
Buscando “o amar”
Contido em nada que não diga “Vá!”
Quando for necessário continuar,
Andar
Para conceber novas formas de compartilhar
O paradoxo é precisar
A antítese é querer
O essencial é estar a par
Que é apenas para seguir
Que sabemos pra onde ir
Aviões voam na expectativa pra corações mexer;
Elétrons caminham ricochetando uns noutros;
Partículas vivas de sentimento um no outro;
Combustão de eletricidade capaz de se ver.
Reviravolta em olhares pro tempo passar,
mas o danado não obedece;
O relógio insiste em fazer do tempo absoluto,
não adianta (pra) populações em greve ou luto,
nem a mais sincera prece,
a saudade ingrata irá continuar.
Por outro lado cabe um alento,
fuga esperançosa ou pressentimento:
a ansiedade irá acabar,
quando ao seus braços retornar!
Hoje era aquela promessa de eletricidade. O que seria amanhã? Andava em círculos pelo chão de granito muito limpo. Todas as luzes do terminal eram ali refletidas. Aguardava a bonita voz feminina que viria do teto anunciando meu voo. A ansiedade latente me roubava a vontade de ler, de comer, de parar. Andava em círculos, e às vezes em linha reta. Ficava no máximo por alguns segundos em frente a alguma vitrine, observando as coisas sem ver. Remirava o relógio incessantemente, como se os ponteiros fossem avançar mais depressa.
Faltavam poucas horas, uma pequena voz na minha mente insistia em dizer. Mas ‘horas’ não atendiam à minha necessidade. Queria segundos, milésimos, se possível fosse. Quantos dias faziam desde a última vez? Cinco? Seis? Poderiam ser mil; não saberia precisar a diferença. Muitos quilômetros e horas me separavam daquela visão e daquela sensação. Queria a eletricidade real, e não essa expectativa lancinante que me torvava a alma.
Olhei em volta e vi um homem recostado num dos assentos que perfilavam-se no meio do saguão. Parecia estar dormindo. Os olhos adornados por óculos de hastes grossas estavam fechados. A boca parecia querer se abrir a qualquer momento, denotando aquele relaxamento facial peculiar aos adormecidos. Pensei que os fones que lhe cobriam as orelhas poderiam facilmente estar tocando alguma canção de ninar. Invejei aquele sujeito. Gostaria de simplesmente relaxar e apagar; sopitar aquela dor quase perene. Gostaria de adormecer e acordar em meu destino. Seria tão simples. Esperar, no entanto, era uma tarefa árdua e complexa.
As horas arrastaram-se lentamente, tal qual um boi de arado no verão. Finalmente a voz etérea que vinha do alto anunciou a minha salvação. Apressadamente, me dirigi ao portão 21, rendendo-me aos procedimentos tradicionais. Nervosismo e sorrisos polidos eram parte do jogo. Passei pelo tubo, cheguei à aeronave e localizei o meu assento. Joguei-me sobre ele e, em vão, tentei relaxar. Vi a mim mesmo, naquele momento, como um anti-Tyler Durden, rindo desse pensamento inusitado.
Deitei a poltrona. Aguardei os anúncios. Observei enquanto a grande máquina taxiava lentamente sobre a pista. Segurei-me aos braços da poltrona quando ela fazia a sua chacoalhante magia que a tirava do chão, revelando uma cidade que mais parecia um amontado de caixas de fósforo em tons cinzentos. Meu estômago rodopiava enquanto eu fechava os olhos. E embora o panorama que se mostrava através das janelas fosse muito bonito (o complexo recorte de nuvens às vezes parecia uma sombra invertida da própria cidade que se estendia lá embaixo, como um negativo de uma bela maquete), somente uma visão surgia por trás dessas pálpebras inquietas. E somente uma.
Seguia sentindo aquela promessa. Esperava, agora com muito gosto, pelas horas que me viriam.
Quero contar dos meus dias:
Da lua que procurei pela noite,
Do sol que vi brilhar pelas frestas
Da Baía esquecida e a Ponte,
Da fumaça que confunde a paisagem,
E daqueles que lotaram os ônibus
Entorpecidos de rotina e caos.
Quero contar do suor que verti copiosa,
Ainda que em salas refrigeradas.
Da voz que não saiu direito, da tosse,
Da prece improvisada, e do sono.
Quero contar que ainda há esperança,
E que as funduras dos rostos torpes
Jamais vencerão o brilho nos olhos.
Que quero fugir, e que é preciso ficar;
Que sem luta não há quem vença,
E que venço, a cada dia,
Pela certeza de que não há acaso…
Findo o ocaso, vou contando meus dias.
E aqui, ainda, vou contando as horas;
Agora, estou cantando ao vento:
Sei que ouves, mesmo que longe.
E eu tão longe, te querendo tão perto.
Era uma grande praça, com muitas árvores grandes e com um coreto grande e amarelo. Em frente ficava a padaria. Era ali que ela gostava de ficar. Muitas vezes pulava a janela de casa, e escondida, ia até a padaria, comprava algo proibido e se dirigia ao coreto. Lá do alto, sentada, gostava de observar a vida passando.
Ela não conseguiria fugir todos os dias e também ficaria cansada. Tinha um morrinho de pedras para descer até chegar ali. Algumas vezes a pegavam no portão e outras ela via que a estavam seguindo. Quando percebia as sombras, ela ia até a padaria, comprava o dobro de coisas proibidas e voltava para casa.
No coreto ela não pensava muito na vida, não. Suas ideias estavam ficando fracas, pensava ela. O passado estava a muitos calendários atrás e o futuro não demoraria também a passar.
Algumas vezes pensava nas irmãs e logo a bola do jogo das crianças a despertava. Elas brincavam folgadas sem a perceberem. Ela gostava, de pelo menos ali, no alto do coreto amarelo, não ter ninguém achando que ela precisava de tanta atenção.
Alguns dias pensava nos filhos que não quis ter e no marido que um dia não conheceu, mas logo um pássaro cantava ali ou pousava no arco do coreto e ela desviava novamente os pensamentos.
Outras vezes, rapidamente, antes do casal novamente declarar amor sentados no banco pintado de branco, ela pensava nas coisas que não poderia comer e as apertava no bolso, para comê-las antes da próxima brincadeira de roda.
Ficava sentada alguns momentos ali, tantos momentos que ela não saberia precisar, e antes do por do sol e depois de uma partida de damas disputadas pelos dois velhinhos na mesa pintada com os quadradinhos, ela saboreava seus doces e descia à rua de volta para casa.
E mais uma vez suas irmãs perguntariam o que ela comeu e porque demorou. E ela não responderia.
Ela via quando a moça nova, cansada, descia do ônibus e passava na padaria saindo de lá com um pacote nas mãos e reparava também nos passarinhos e pombas que comiam as migalhas de outro pão deixado no meio da praça.
Gostava de observar quando o ônibus parava e o motorista pedia um café. Às vezes pedia água. Verificava a avó levando a netinha uniformizada pelo braço e a mãe parando o carro para comprar o lanche do filho. Via os cães com os donos e tinha medo dos sem donos.
Outras vezes via as folhas caídas e percebia o barulho musical que faziam quando eram pisadas. E se lembrava das teclas do seu velho piano. Mas logo esquecia o piano e observava as flores chamando as abelhas.
Algumas pessoas a olhavam também e deveriam se perguntar por que alguns dias da semana ela ficava no alto do coreto amarelo, sentada, observando e comendo algo escondida. Mas pensavam tão silenciosamente quanto ela.
Até que um dia, sonhava, antes da próxima primavera, ela sairia pela porta de frente, deixaria as irmãs e não passaria na padaria. Num domingo, mudaria sua melhor roupa e não colocaria nada nos bolsos. As irmãs não iriam atrás dela. Dirigir-se-ia ao alto do coreto amarelo, sem sorrir e com o semblante pacificado; tendo ao redor, lá fora, as folhas a serem pisadas e o céu cheio de nuvens; tocaria seu velho piano ainda uma última vez.
E quando as primeiras gotas de chuva caíssem; das nuvens agora carregadas; os pássaros, abelhas, cães, crianças, mães e avós, ao ouvirem a música vinda do alto perceberiam, em paz, que era hora de partir.
Mais um dia se passou
E quem fez diferente?
No bilhete a resposta
Pras questões na sua mente
Escolha bem sua trajetória
O homem que apontou o norte
Disse: Vá em frente
Então vai, ôôô
Então vai, crescer
Escolha ser a mudança que quer no mundo
Com armas de papel
Escrevo uma nova história
E nenhuma página de tristeza
Vai me parar
Então vai, ôôô
Então vai, crescer
Escolha ser a mudança que quer no mundo
Então não estará sozinho
Perdido no caminho,
Entre a pedra e o espinho
Ouvirá tocar o sino,
Soando o chamado
O chamado do Divino…
Então vai, ôôô
Então vai, crescer
Escolha ser a mudança que quer no mundo
Vejo leões, signos em canções, violinos, poesias;
Vejo liberdade, livramento, comoção de emoção;
Vejo arte, compaixão, bondade, soar de alegrias;
Vejo lápis, papel, tirar de véu, câmera em ação;
Vejo sinceridade, flores, poemas, dilemas cerrados;
Vejo cumplicidade, valores de bem, real amizade;
Vejo simpatia, sintonia, juntas de laços bem amarrados;
Vejo destino trilhando, caminho selando o juntar de idade;
Vejo voz doce de encanto, olhares de espanto, fiel mocidade;
Vejo brilho em olhos em tenra pureza;
Vejo em atos e gestos: humildade e delicadeza.
Vejo muito mais…
Vejo paz!
No primeiro mês do Blog, uma música para comemorar o encontro RJ e MG:
Deixa eu contar minha história
Vou contar minha história
Deixa eu contar minha história
Vou contar minha história
Sou neguinha, sou negona
Sou branquinha
De origem africana
Com um toque de ariana
Sou tetraneta
Da escrava castorina
E um meu tataravô
Parente de tiradentes
Senhor rezende
Largou sua mulherzinha
Pra viver com castorina
Quando ainda era mocinha
E quem sabe dessa história
É alzira vovozinha
Quem sabe dessa história
É alzira vovozinha
(o coronel andré rezende sentiu uma
Paixão avassaladora pela escrava castorina, foram morar
Juntos e tiveram treze filhos,
Meus ancestrais. Tudo rolou na
Região de Campos dos Goytacazes.
De lá um dia saiu meu pai, João
Francisco pra se casar com
A mineira sônia, minha mãe,
E depois eu cheguei na área)
Eu sou do rio, sou gemada carioca
Sou campista, sou mineira
Sou cidadã brasileira.
Sou mimosa, sou faceira
Sou cidadã brasileira
Sou dengosa, sou maneira
Sou cidadã brasileira
Sou guerreira e cervejeira
Sou cidadã brasileira
Tô na roda e sou ligeira
Sou cidadã brasileira
Sou sambista e calangueira
Sou cidadã brasileira
A voz foi embora na noite de estrelas caídas
E os olhos amanheceram cansados sob o ardor do dia
A manhã poderia ser comum e dolorida
Exceto por um fato que surpreende a mim mesma:
Suspensa, respiro à espreita de tuas palavras;
Encabulada por tua sensibilidade e beleza.
A páscoa para os judeus significa libertaçãoduma luta árdua, suada, contra a escravidão; A páscoa para os cristãos remete ressureição
da carne daquele cujo feito é a maior lição; A páscoa para os pagãos simboliza fertilidade
com os ovos e coelhos da multiplicidade; A páscoa para o capitalismo dita o chocolate:
– do mais caro, sem razão! Isso nos abate; A páscoa para o oriental: – eu não sei…
deve-se ser qualquer, apenas mais um “day”; A páscoa para quem labora expressa feriado,
dias de descanso, ócio, pendências, estou errado? A páscoa para alguns não representa nada,
sem motivos, porquês, capitão sem farda; A páscoa para os espíritas conduz renovação,
dos eternos espíritos em busca de evolução; A “paz coa” a turbulência: num re-caminhar;
A essência da paz ressoa: nesse acreditar!
Eu ia caminhando pela infindável areia branca. O sol forte refletido no solo macio fazia o mundo se encher de uma luz febril. Era agravádel andar sozinho, mas mesmo assim chegou o velho. A princípio, nada disse, apenas se postou ao meu lado, enquanto mascava fumo e ajeitava as roupas surradas.
Começou a falar, e a voz rouca dissonava da aparência frágil. Disse que gostava de andar pela areia, pois o mar era muito traiçoeiro. “Previsível é bom”, disse. Perguntou-me pra onde eu levava minha sombra e respondi que não havia pensado no assunto. Era verdade. O velho sorriu. Conversamos sobre muitas coisas. Sobre o sol, sobre o céu, sobre a areia e sobre as chuvas. Falamos a respeito dos lugares pelos quais tinhamos caminhado. Em dado momento questionei se pensava ser correto andar. Andar pelo bem de andar. Andar como um fim e não como um meio para se chegar a algum lugar. O velho não pareceu particularmente intrigado pela questão. Talvez não soubesse a resposta, ou talvez soubesse respostas demais para se preocupar com o caminho que os pés percorriam. Talvez desse mais atenção à própria cabeça. Ou talvez fosse tão vazia que qualquer pergunta se tornaria infértil.
Depois de alguns dias errando em silêncio, o velho ergueu os olhos e disse que tinha caminhado a vida toda. Andou por todos os lugares do mundo. Dormiu em florestas, subiu as montanhas e nadou nos mares e rios. Os ombros caídos só faziam exacerbar a atenção que era dirigida ao tímido gesticular das mãos. Até então nunca tinha refletido sobre a finalidade de andar, ele disse. Agradeceu, acenou e foi embora.
Continuei pela areia. Previsível não podia ser tão bom. Achei que seria correto descobrir porque eu caminhava desde que nasci. Aprumei a mochila nas costas e fui em direção ao mar. Os infinitos leçois azuis que atemorizavam os velhos covardes deviam ter algo a dizer aos jovens. Inspirei o úmido ar salinizado e me senti imediatamente mais limpo. Apossei-me de uma velha canoa meio tombada em uma duna próxima. Os remos pareciam ainda bons. Entrei na água, desafiando as ondas que, embora pequenas, eram um adversário formidável àquela débil embarcação. Fui até aonde não mais podia ver a costa. Notei que, a princípio, minha intenção era desafiar um velho, mas, tendo chegado até ali, talvez pudesse ver um pouco mais.
Fui remando…

