Que as palavras não se percam
Quais sementes vazias de amor
Que as ações não se misturem
Qual neblina de orgulho sem valor
Que os abraços não esperem
Qual brilho de vaidade a seduzir
Que o olhar não se mascare
Qual mentira desvelada a permitir
Que a vontade de lutar
Qual força divina
Não se perca com as dores do caminhar
Que a esperança da vida
Qual chama de harmonia
Não se ascenda qual impulso sem pensar
Que a luta pelo bem
Qual postura edificante
Não seja palco de vaidade a se esmerar
E que a vida
Qual presente precioso
Não seja jogo de ilusões
Aventuras e paixões
Que se perdem pelo ar…
Pela orla a criança ia andando devagar, e abaixo dela a areia gelada a lembrava da gravidade que a prendia ao chão. Acima dela, no entando, espalhava-se aquela grande redoma de vidro e cristais que os adultos insistiam em chamar de céu, e essa imensidão, que era pontuada de um infinito reluzir, lhe dizia que a cabeça poderia – e deveria – flutuar ao lado das nuvens. E era apropriado que assim fosse, porque o som das ondas beijando a compacta areia escurecida pela noite era hipnotizante e aprisionava a criança naquele sonho consciente e inocente que lhe acompanhava à beira-mar. A mão direita trazia os chinelos e a mão esquerda carregava as moedas que, a seu turno, a levariam para casa quando o sonho vivo tivesse fim.
Não enxergava nenhum adulto caminhando pela areia ou observando o céu e quis saber como tinham conseguido crescer tanto sem conhecer noites como aquela, pois não acreditava que pudesse haver algo melhor ou mais importante; algo mais digno de ser contemplado. Bem, talvez não tivessem crescido ainda, uma velha criança poderia até dizer.
O vento frio e o limpo cheiro de sal lhe inflavam os pulmões. E ela seguia andando. E embora andasse e pisasse sempre da mesma maneira, notou que as pegadas surgiam abaixo de formas variadas, porque se o solo arenoso fosse mais compacto, as pegadas seriam mais rasas, desaparecendo mais rapidamente sob as espumas brancas que avançavam aqui e ali; se, porém, a areia fosse mais maleável, as pegadas seriam mais profundas e difíceis de serem levadas pelas ondas. Meditou que talvez mesmo após eras de existência o homem ainda houvesse algo a aprender com o mar; talvez as marcas que deixamos no mundo tenham menos a ver com a forma com a qual caminhamos e mais com a areia sobre a qual pisamos, imaginou o menino. Talvez não precisasse controlar todas as coisas, afinal. Isso, àquela criança, parecia um pensamento encorajador.
Sentou-se em um pequeno aclive do solo e desejou não precisar ir para casa. Queria poder ficar ali, desfrutando daquele simples prazer que se apresentava quase como um sonho real. Uma escola feita de areia, água e sal.
Macaé, 30 de abril de 2012
Poema, publicado no livro Metáforas da Alma e declamado, no dia 24/03/2012, em Macaé, por Thiago Amério e Carol Lopes.
Deus, o poema
Sob o eclipse do sol, um outubro gradua
enorme translação. Mercúrio, terra e lua
trocam chispas no céu. Sete provas de fé!
A onda gigantesca encobre os Apeninos.
É o terceiro milênio açodando os destinos,
numa repetição da história de Noé!
Sempre que penso em Deus, procuro dar-lhe forma,
e a idéia que se forma, aos poucos se transforma
numa forma sem forma ou desenho sem cor…
É que, eterno que é, Deus não teve começo
e nem fim. E, assim sendo, eu me perco e padeço
por sentir que subir é descer e repor.
Mas… descer e repor? E quando o solo bruto
era o caos, o negror, era o caos absoluto,
obra do Criador, o Criador seria
exatamente um só? Ou seria um conjunto
de outros seres de luz? Aí eu me pergunto:
será que Deus previu a vã filosofia?
Eu acho que previu. Mas… se é Deus infinito,
Deus não é o infinito? E esse enorme conflito
gera, dentro de nós, o sofisma que vai:
Deus, sendo o Criador de tudo que há no mundo,
e existindo também, Deus seria, no fundo,
seu próprio Criador… o Pai do próprio Pai…
Mas… basta-nos pedir uma chama divina
para intuir que Deus é luz que não termina…
Ele é a causa primeira! É ele o grão e o grau!
Pobres-de-alma, por isso, os que, juntando o efeito
à causa, e desvirtuando o princípio perfeito,
buscam no panteísmo o refúgio final.
É Deus quem nos permite a louca liberdade
do sonhar, do sentir, do crescer de verdade,
do olhar uma esperança e avistar um jardim…
Liberdade!… Meu Deus! Quase a boca blasfema!
Quase digo que Deus pode ser o Poema!…
Quase afirmo que Deus está dentro de mim!…
Deus é único! É bom! É justo! É imutável!
É imaterial! É fonte inesgotável
de caridade e amor perante os filhos seus…
Mas… se a eles é dada uma coisa mais alta,
que revele à ciência o que à ciência falta,
não podem ir além das concessões de Deus.
Mas… por que Deus concede a todos liberdade
sem defini-la em nós? Acaso o acaso invade,
de maneira intuitiva, o que pensa e o que não?
E a inteligência humana, extenso labirinto,
por que às vezes se engana, ao contrário do instinto?
E entre o absurdo e a coerência o que há mesmo é razão?
Ouço vozes de sim. Mas… quem sou eu, poeta,
figura de intermezzo, uma idéia incompleta,
para olhar uma estrela e dizer que ela é irmã
de Sírio na amplidão? De Capela? Ou de Vega?
Ou, quem sabe, é uma estrela entristecida e cega,
que pediu emprestada a luz de Aldebarã?
Mas… quando, acesas, vêm e nos fazem perguntas
de incomparável brilho, e entre as nébulas, juntas
aguardam nossa voz, o diálogo se dá?
Sem dúvida! Acontece é que o invento mesquinho
que somos, nem percebe o que está no cadinho,
e muita vez nem sabe onde o cadinho está…
E o princípio de tudo? A razão do universo?
O princípio é negado. Esconde-se, disperso,
dobrando e desdobrando as dobras siderais…
O mistério, este sim, o das coisas tão belas,
à proporção que Deus aprimora as janelas,
avistamos além… e o menos se faz mais…
Mais ou menos assim a humanidade deve
não mergulhar na terra a vista curta e breve!
Por que buscar no pó os castigos humanos?
Em verdade, uma idéia a seu próprio serviço,
é capaz de vazar o infinito e, com isso,
receber o calor de outros sóis… de outros planos…
Mas… Deus, o Criador, quando enviou o Cristo
através de Jesus, não teria previsto
que a idéia essencial esbarraria em nós?
É claro que previu! É que este chão é vário!
E embora a chuva e o sol, continuará calvário
e intervalo: o buril do que há antes e após!
Intervalo!… Intervalo!… Há bilhões de intervalos
no ciclópico azul. Mas… para pernoitá-los,
havemos de sentir o que sentiu Jesus?
Não! Quanta ingenuidade antecede a pergunta!
Nem o peso de toda a humanidade junta
contrabalançaria uma lasca da cruz!
Uma lasca da cruz! As almas fazem contas,
no eterno devenir que amarra as duas pontas
da vida universal. É o divino mister!
Mas… cuidado! Se Deus mata o mito da morte
no ofício de ser Deus, não há deus que conforte
quem diz querer os fins e acaba os meios quer!
Sob o eclipse do sol, um outubro gradua
enorme translação. Mercúrio, terra e lua
trocam chispas no céu. Sete provas de fé!
A onda gigantesca encobre os Apeninos.
É o terceiro milênio açodando os destinos,
numa repetição da história de Noé!
Do outro lado do oceano ficaram seus pais. Outros amores também ficaram para trás. Levava apenas uma pequena mala e muita vontade. Como numa música triste nunca mais veria aquele cais.
Ao pisar na nova terra viveu de ponte em ponte até encontrar seu próprio chão. Era novo e vendia sabão de porta em porta, que ele mesmo fazia. Nas horas vagas aprendia mágica. Economizava aqui e ali, ganhava gorjeta acolá e na saída do mercado, carregando as compras das senhoras. Inventava um novo nome para o sabão e se oferecia para cuidar do capim que insistia em nascer nas casas dos antigos coronéis. Passeava com cachorros e lavava uma camisa enquanto usava a outra. Às vezes não almoçava. Em pouco tempo começou a fazer pequenos números com baralhos e moedas para as crianças do bairro. E em seu quintal seu sonho começou a se tornar uma grande lona. Tão grande que sairia pelas cidades e receberia o nome de circo do seu Nonô.
Ia pelas cidades com uns pequenos números de mágica, dois palhaços e alguns animais. Com o dinheiro arrecadado com toda a venda dos sabões comprou alguns alimentos e algumas fantasias. Em um carro velho carregava seu sonho e à noite usavam-no para dormir. Ao passar nas cidades vendiam ingressos, ganhavam comida e alguns aplausos. Estava emagrecendo, mas seu sorriso era farto. A barba crescia e o desejo de ir sempre para outra cidade também. Era o primeiro a incentivar os amigos palhaços e o último a comer. Suas mágicas eram simples, mas sabia transforma-las em uma grande festa para as crianças.
Ainda não tinham saído do Estado quando a viu. De longe em um vestido florido com maneiras gentis. Usou toda a mágica de seu pensamento para se desviar dela, mas a festa que seu coração fazia era maior. Ela o arrebatou e o levou. No mesmo carro velho deixou o circo para trás. Como num filme antigo nunca mais veria aquele céu de gris.
Hoje, de cabeça branca e sorriso franco, faz mágicas para os netos. Os enche de guloseimas e outras coisas mais. Brinca de soldado e de trapezista. Inventa que é o dono da mercearia da esquina e que podem escolher o que quiserem. Oferece beijos e sonecas no meio da tarde. E o show do circo acontece agora em meio aos livros de sua livraria no centro da cidade. Como num livro raro, vive feliz.
U de útil,
V de verdade.
X de vezes:
Z de z – elo!
É curioso saber que um homem não sente medo. E assim é desde que aquele homem nasceu. Nunca chorou, pois nunca temeu a dor que sentiu. E as cicatrizes contavam histórias de sangue perdido, pois nenhum desafio lhe impunha temor, ainda que grandes demais para serem suplantados. Não entendia o culto aos mortos, eis que não temia a morte, de modo que não se sentia ligado a ela. Sempre se sentava sozinho, pois a ele faltava a humanidade procurada em toda interação humana. Não era capaz de amar, porque nunca se ouviu falar de amor sem o medo de perder. Não sentia medo, é claro, mas se sentia incompleto. Queria temer, porque, ainda que nunca tivesse experimentado aquele sentimento, sabia que era essencial. Queria o medo do amanhã, queria o medo da dor e, mais importante, sentia a necessidade de amar. Sabia que não seria ninguém enquanto não pudesse ser como dois. Queria dividir.
Mas querer não é poder. E a sua natureza era aquela. Não temia nada. Era destemido e bravo como nunca se viu. Talvez servisse àquela própria natureza antihumana. Talvez fosse feito para não amar. Talvez até para praticar o desamor. Não compreendia a necessidade que o mundo poderia ter em receber em seu seio um homem como aquele, mas o fato era que existia – esse era o mistério que verdadeiramente não compreendia.
Um dia notou que temeu nunca vislumbrar seu lugar neste mundo. Talvez estivesse no caminho certo. Talvez um dia pudesse temer de verdade. Talvez um dia pudesse perder, e por isso, sentir medo. Talvez um dia pudesse… talvez.
Homenagem ao dia nacional do livro infantil, 18 de abril, data do nascimento de Monteiro Lobato.
Marmelada de banana, bananada de goiaba
Goiabada de marmelo
Sítio do Pica-Pau amarelo
Sítio do Pica-Pau amarelo
Boneca de pano é gente, sabugo de milho é gente
O sol nascente é tão belo
Sítio do Pica-Pau amarelo
Sítio do Pica-Pau amarelo
Rios de prata, pirata
Vôo sideral na mata, universo paralelo
Sítio do Pica-Pau amarelo
Sítio do Pica-Pau amarelo
No país da fantasia, num estado de euforia
Cidade polichinelo
Sítio do Pica-Pau amarelo
A tez morena e franzida contrastava com os ralos e escassos fios prateados que repousavam sobre a cabeça daquele homem. O semblante era rígido, porém amável; exibia uma força que confortava aqueles que o rodeavam. Para os filhos era uma bastilha de pedra e afeição; para os netos era um herói e um salvador.
Gostava de se levantar cedo. E por onde andava era seguido pelos fiéis cães que guardavam o sítio em que morava – prêmio de uma vida de provações e sucesso que agora lhe servia como sagrado local de descanso, um paraíso particular na Estrada da Fita em Pedra de Guaratiba, pequeno reduto de pescadores no Rio de Janeiro.
Andava resoluto pelo solo relvado. Aqui e ali surgiam árvores das quais brotavam os mais diversos frutos. Havia limão galego, fruta pão, laranja, pitangas, caju e jabuticaba. Passava por várias delas até chegar à horta que cultivava na parte mais ao sul do terreno. Ali fazia a sua mágica todas as manhãs, logo depois de soltar as galinhas, os galos e os patos que começavam a cacarejar nos poleiros circundados por cercas armadas por suas próprias mãos. Gostava também de capinar e, quando se punha a realizar aquela atividade, contava com a valorosa ajuda do neto caçula de cinco anos, que calçava galocha tal qual o heroi ao seu lado; não aguentava manejar o ancinho, é claro, tampouco podia envergar a enxada, por óbvio, mas trazia a energia necessária ao desempenho daquele ofício, postando-se orgulhoso ao lado do avô.
Aos domingos ia ao centro do bairro comprar peixe e fazer a feira com a esposa. Às vezes parava com os netos na velha taberna de pescadores e comprava uma dúzia de empadas de camarão.
Durante o restante da manhã se punha a limpar meticulosamente a piscina, enquanto as crianças observavam inquietamente pelo comando que lhes permitiria correr e se atirar na água cristalina. Se a ocasião fosse boa, haveria churrasco e sinuca e, embora não fosse sujeito de muitas e sonoras palavras, todos poderiam ver a felicidade estampada no velho rosto de pedra.
À noite juntava suas riquezas ao seu redor no confortável colchão do seu quarto. Eram as crianças, é claro. Os netos. Eles queriam histórias, embora conhecessem de cor e salteado todas elas. A preferida era a da bruxa do norte, a Matinta Perera e a saga do menino Petronílio e seus cachorros que se embrenharam pelo meio selva e se meteram a lhe furtar alguns biscoitos. Contava aquelas histórias pela milésima vez e sempre se seguiam os tradicionais “e o que aconteceu?” acompanhados de suspiros de surpresa e nervosismo. Petronílio sempre vencia, afinal.
Mas nem todos os ídolos vencem, e o tempo sempre leva os homens, ainda que tenham o fogo e a pedra no espírito e no caráter. O importante é o que fica quando se vão. E hoje, olhando ao redor, contando uma a uma as peças do legado deixado, posso agradecer pela herança que ficou em mim, e pedir a Deus pra que me faça grande o bastante um dia e que me permita, também, deixar aos meus a boa parte do fogo que recebi.
Era uma menina como outra qualquer… Na verdade, como outro ser humano qualquer: possuía vontades. E, vontades, todos têm.
Mas o que intrigava a menina não era ter vontades, e sim o conteúdo delas. Naquele momento, a vontade que a tomava e a fazia lamentar-se pela impossibilidade da materialização, era de sumir e deslocar-se para o meio de um campo florido, em que houvesse um piano e o som de muitos violinos no ar. Ali, ela apertaria teclas, no rumo da música orquestrada e, junto à natureza que a rodeasse, se tornaria parte do coro que geme pela redenção de todo o mal que há no mundo – inclusive o seu próprio.
“Será possível que só à minha mente tudo isso acorra?”. E pensou que, na verdade, isso talvez não importasse muito. “O que importa não são os detalhes do conteúdo da vontade. Afinal, sei que muito neste mundo geme junto a mim, estou certa disso”. O que importava era que não estava sozinha, nunca, nem por um segundo.
E, isso posto, voltou à realidade momentânea, voltou à sua tarefa no trabalho… Contudo, com um pouco mais de paz e esperança. E, diferentemente do que dizem sobre “vontades”, aquela vontade não passou – se aquietou. O tempo haveria de chegar.
Sem o não
Inexiste solidão
Tamanho é o alçapão
Daquele que prefere a ilusão
A vida é compartilhar
E é assim que ela se faz
Sem pensar no mais
O coração simplesmente se compraz
Caminhando ou conversando
Certamente amando
O viver um dia de cada vez
Na afirmação do amparando
Não quero esperar
Esse alguém por encontrar
Quando já sei o que achei
Resignifiquei
Sigo, amigo
Deixando pra trás
O eu que se desfaz
Sabendo que o novo
Não é nada mais
Que outra perspectiva do antigo
Deixo de lado o que eu espero
Não penso no que eu quero
Cuidarei com muito esmero
Das lembranças número zero





