“Eu sei” (Renato Miguel)
Ao toque do sino
Vibraram tuas velas
Convoco as funestas baladas
Sorvi teu incenso
Soprei a bruma ocre
Sorri à iminente jornada
Sei bem quem és tu
Teus dias escuros
Teu peito ligeiro a arder
A ânsia de um fraco
A farsa em tocaia
Teu grito em silêncio: prazer!
Sou quem tu procuras
Nos becos da alma
Teus medos são bestas aladas
A razão tão distante
Qual lua minguante
Bravura, uma fera esgotada
Servi, tão contente
O sangue em teus lábios
Farejo o terror trovejar
A morte te segue
Os olhos já falham
À alma só resta chorar
Não há mais sentidos
Tampouco há razão (eu sei)
Encarno e contemplo teus feitos
Os montros se erguem
Brandindo navalhas
Seus pés são desertos desfeitos
Loucura! É o que dizes
O sangue não mente
Escorre das mãos à cabeça
Teu olhos fechados
E os punhos cerrados
Apendendem a velar a tristeza
Mas nunca me culpe;
E aqui lhe questiono:
Anseias ainda acordar?
Vá entorpecido
Ereto e ferido.
Ao menos consegues sonhar.