Castelo de Areia – Renato Miguel
Há dias em que o marasmo é o destino mais doce. Num deles o cenário era composto por uma tranquila porção de areia fina, sol, água salgada e uma brisa morna. Havia uma canga estendida por baixo, e ali eu estava sentado. E lá também estava ela. Nos meus braços eu envolvia seu tronco macio e esguio. Seu cabelo vez ou outra lambia meu rosto ao sabor do vento brando que varria o lugar. Ao lado e à frente um menino empenhava-se em erigir um castelo na areia. Era bonito vê-lo trabalhar tão avidamente com a pazinha e um pequeno balde azul. Canudos com listras vermelhas adornavam as muralhas e um fosso foi cavado em volta.
Fechei meus olhos ao redor do lindo rosto e aprisionei seu sorriso. Respirei fundo, absorvi o perfume e sorri pensando que na minha mente eu também erguia meu próprio castelo. Dos delicados ombros dela eu fiz minha muralha; de seu coração fiz minha cidadela; dos braços, as mais altas torres; dos cabelos, meus estandartes. E nos lindos olhos eu ousei fixar o meu trono, onde eu repousaria até que não mais fosse rei, ou até que uma onda levasse em suas espumas toda essa doce ilusão.