Tragédia – Renato Miguel
E é assim que tudo começa. Um “bom dia” ou “boa tarde” no corredor em um dia comum. Um olhar furtivo, encontrado, descuidado, em uma mesa repleta de pares de olhos perdidos. Um fugaz sorriso e um roçar de dedos que lhe tomam brevemente o comando sobre as pernas. A brisa doce que vem do movimento dos cabelos que passam por você vagarosamente. E de repente você tem lembranças em uma manhã nublada, que te faz acordado ainda com o gosto dos lábios que passaram a lhe sorrir de outra forma, reluzentes; lembranças de um aroma que dormiu na ponta dos dedos, na gola da camisa e nas mangas do casaco, um perfume conhecido que agora assoma em outros contornos na sua mente, que lutou tanto pra encontrar a paz. E agora tudo começa outra vez. Você acorda entregue àquela derrota, superada em outras guerras à custa de muito sangue. Uma tragédia, sem dúvida uma tragédia. E do pior tipo. Pois o pior tipo de tragédia é aquela que te faz sorrir.
