A volta do grito ao surdo e da cor ao cego (Introdução) – Thiago Amério
Naquela cidade fria e cinzenta, dominada por dinheiro e óleo da terra (jogado no mar), dois cidadãos foram dar uma volta.
Observavam, numa rua esburacada, a noite surgindo. Não se conheciam ainda… embora muitos tenham dito que haveria muito a fazerem juntos. Mas pensavam (em tempo e lugar distintos): – são só mais alguns profetas que não sabem o que dizer e nos obrigam a fazer coisas. Todo domingo é a mesma coisa. Após o culto falam que vamos encontrar com alguém e fazer um mundo mais bonito e feliz. – pensavam ambos.
Entretanto, entre esses dois transeuntes (até então desconhecidos), naquela estrada mal acabada e friorenta, havia algo que impediria bastante seu encontro. Algo que em época moderna é bem sanado (para alguns – que pouco a valorizam): a comunicação.
O primeiro, cego de nascença, não sabia escrever. O segundo, surdo após um estouro de uma bomba, só se comunicava pelos outros sentidos, ou seja, não sabia ler. Criou-se, na segunda-feira, a dicotomia entre dois saberes: a leitura e a escrita.
