Por que morrem os reis? – Renato T. de Miguel
Por que morrem os reis? Por que perdura a coroa se não há mais homem vivo que possa usá-la? Por que o vazio ocupa, inquieto, o espaço onde antes havia vida? Por que a dor, que era tímida e fugaz, hoje se mostra tão perene, como as ameias de um castelo? Porque o amor lhe fere como uma lança, quando tudo o que deseja é ser salvo pelo ódio? Por que a amargura lhe sufoca o peito, lhe aperta a garganta e lhe transborda pelos olhos em ligeiros fios mornos que secam impotentes antes de lhe chegar ao queixo? Quem escolheu as regras do jogo e lançou os dados sobre a mesa, dardejando tudo ao chão antes que o dia e a festa chegassem ao fim? De que valem as palavras doces se não há mais ninguém vivo que possa ouvi-las? Entre o pouco do que é certo, são as perguntas que, antes desimportantes, hoje surgem à frente mesmo das respostas. E de tudo que não se sabe, à frente de todas as coisas segue, inviolável, aquele amor que nunca é (e nunca foi) o bastante.