Prantos a uma ideia fugidia – Renato T. de Miguel
Tão rápido quanto chega, ela se vai. Passa batida como um bólide antes mesmo que eu ouse registrá-la em papel. É a sombra de uma ideia fugaz que se esvai na mente tal qual a fina areia por entre os dedos de um menino.
A princípio, parece boa e talvez até mesmo troque em um bom texto se eu tentar o bastante. Tudo que preciso fazer é revesti-la de belas palavras e de uma métrica regular que não maltrate os olhos. É uma ideia generosa, apresentando-se a mim sem pedir nada em troca. Ah, como é altruísta essa tal de inspiração.
Como dito, porém, ela não se faz perfeita. E sua efemeridade é a sanção adequada imposta ao escritor preguiçoso. Talvez aí resida a distância entre um poeta e um mero brandir de lápis: talvez aquele consiga aprisionar as palavras no coração tão logo surja diante de si, glorificando-as com o seu talento ao materializá-las em papel, ao passo que um mero detentor de tinta é tão desidioso que se torna incapaz de segurá-las, ainda que tenham elas se insinuado face a ele.
Que bom seria se eu fosse um gigante; um Hefesto mais glorioso que Apolo, que pudesse gravar a fogo as palavras, por menores que fossem, nos ossos das maiores montanhas; que pudesse pentear os desertos e esculpir naquelas dunas as poesias que, ainda embrionárias, me brotassem na mente. Mas nada disso consigo fazer, apenas posso lamentar a desídia e a frouxidão dos laços da minha cabeça e, resignado, esperar pela próxima generosidade das letras, rogando, a Deus, que elas nunca desistam de mim.