Confissões e Correspondências – Carla Guedes
Quero contar dos meus dias:
Da lua que procurei pela noite,
Do sol que vi brilhar pelas frestas
Da Baía esquecida e a Ponte,
Da fumaça que confunde a paisagem,
E daqueles que lotaram os ônibus
Entorpecidos de rotina e caos.
Quero contar do suor que verti copiosa,
Ainda que em salas refrigeradas.
Da voz que não saiu direito, da tosse,
Da prece improvisada, e do sono.
Quero contar que ainda há esperança,
E que as funduras dos rostos torpes
Jamais vencerão o brilho nos olhos.
Que quero fugir, e que é preciso ficar;
Que sem luta não há quem vença,
E que venço, a cada dia,
Pela certeza de que não há acaso…
Findo o ocaso, vou contando meus dias.
E aqui, ainda, vou contando as horas;
Agora, estou cantando ao vento:
Sei que ouves, mesmo que longe.
E eu tão longe, te querendo tão perto.